sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A atenção que gostaríamos de chamar para uma situação que nos diz respeito a todos

In Publico
Miguel Esteves Cardoso

Não aconselho a ninguém ouvir muitas horas de fóruns radiofónicos. As vozes na cabeça não se vão embora. Parece ter havido festa da grossa na sala mental onde iam as minhas palavras quando queriam estar à vontade.

Está irreconhecível. Os móveis estão todos virados e o chão está cheio de luxuosos vocábulos e de expressões da mais alta bitola, presidenciais até, que não sei como é cá vieram parar. Espalhado por esta balbúrdia há um granel de pás e porras, almas despejadas e sinceridades.

Quanto tempo me vai levar a limpar isto tudo? Pego num grande saco preto, visto as luvas e vou apanhando aqueles detritos todos. Mas, logo na segunda frase, detenho-me a examiná-la.

"Eu não acredito na crise: a crise somos nós que a fazemos."

Há aqui dois espectros em jogo: o espectro da confiança e o espectro da culpa. O primeiro depende de quanto se acredita no que "eles" (os que mandam neste país e enriqueceram à custa dele) dizem. A posição mais portuguesa é a do meio, porque nunca falha: "Desconfio que não seja bem assim..." Como nunca é bem assim, nunca se faz má figura. Se as coisas estão muito piores ou piores do que eles dizem, também funciona porque o "não ser bem assim" aguenta uma carga irónica tão pesada quanto convier.

O espectro da culpa depende do grau de culpa que se atribui a "eles". Aqui a posição mais portuguesa é radical, mas, ao mesmo tempo, assegura que não se venha a ser desmentido: "Minha é que não é, com certeza..." 



Passa por gracejo, mas, subentendida, há uma circunspecção: se calhar ele sabe quem são os culpados, mas prefere guardar segredo, por enquanto.

A frase "Eu não acredito na crise: a crise somos nós que a fazemos" acaba por ser duplamente desconfiada. Este português não só não acredita no que "eles" dizem (que há uma crise), como não acredita nos compatriotas que concordam que há uma crise e que a culpa é de "eles" e não deles.

A culpa da crise é de todos nós - parece um truísmo. Mas o ouvinte não acredita na crise. Só acredita na culpa por essa crise em que não acredita.
É por estes pensamentos originais que vale a pena ouvir os rádio-fóruns.

Como contra-exemplo, eis a opinião de um ouvinte que desconfia e culpa a cem por cento:

"Eu acho que, efectivamente, o Governo português não quer resolver a crise - quer é manter este clima agonizante."


E também não está mal visto, porque dei comigo a pensar, já levado pelo espírito do fórum, que já não seria nada mau conseguir manter este clima agonizante e não deixá-lo piorar.


Como, de longe, a palavra mais usada nos rádio-fóruns é "situação", é preciso dar-lhe a importância que lhe dão.


É muito português esta delicadeza de usar uma palavra neutra para descrever problemas e desgraças de todos os graus de gravidade, desde perder a chave da porta e não conseguir entrar em casa aos terramotos. Pode até denunciar-se o problema com a maior veemência, mas a palavra que se usa para descrevê-la, como se fosse para não ofender, é "situação".

O recato estende-se à adjectivação. Fala-se da pobreza em Portugal - da miséria - e diz-se que é uma situação "difícil". Como se fosse um grau de sudoku. A versão ainda mais disfarçada, quase brincalhona, é "complicada". Diz-se que uma situação é complicada, como se houvesse uma multidão de portugueses a clamar teimosamente que ela é simples.

Eis um belo exemplo:

"É natural que, com estas duas situações juntas, a situação se tenha agravado..."


Ao que responde a locutora, fugindo habilmente à repetição da situação, através de um dislate comum, mas menos frequente:

"Mas acha que esse conceito vai manter-se?"

Aqui, apetecia que o ouvinte tivesse respondido:

"Não, é coisa passageira..."

Em forunês, ninguém é pobre

Há, sem dúvida, um dialecto forunês. Utilizam até um dicionário diferente. Pegaram num dicionário de português e tiraram-lhe as palavras curtas.

Depois tiraram as palavras que são claras de mais, por serem umas descaradas.

Mesmo os portugueses mais desgraçados merecem a protecção de palavras que escondam a desgraça deles dos ouvidos do mundo. São mantas de papa que lhes tapam a nudez e conferem uma dignidade que, apesar de simbólica e ridícula, sempre é preferível à verdade.

Nos fóruns, são muitas vezes os peritos que mostram como se fala. A começar por Cavaco Silva, que sabe falar forunês perfeito. Em vez de dizer que os pobres estão cada vez pobres, diz que

"as pessoas de mais baixo rendimento passam por situações de privação".

A preocupação é genuína, com certeza, mas a maneira de falar é tão pomposa, técnica e eufemística que a impressão com que se fica desta gente é que são mais umas pessoas a passar por situações, como todos nós.

Em forunês, ninguém fica pobre:

"lançam-se mais alguns para situações mais difíceis".

Fala-se em pobreza, claro, mas não em pobres. Mas, para arranjar coragem, levam sempre uma milícia de palavrões guarda-costas.

Sobretudo quando irrompe um acesso de clareza. Foi o caso de uma ouvinte que perdeu a paciência e disse em bom português:

"A pobreza não existe. A pobreza são pessoas. Estamos a falar de misérias!"

Responde o perito:

"Tal como refere, muito bem, eu julgo que seria importante referir o aumento sistemático, ao nível das crianças, do risco da pobreza, relativamente a esta situação."

Tradução para português (como se a ouvinte falasse apenas dos pobres adultos): "E as crianças também sofrem..."

A certa altura, desconfia-se que esta maneira de falar não é só para proteger os pobres do vexame público. Serve também de pára-choques para o resto da população.

Basta fazer o teste. Sempre que falam dos mais pobres, dizem-no de uma maneira que nos permite, com um mínimo de ginástica, dizer: "Também eu..."

Também eu passo por situações de privação. Também eu já fui lançado para situações mais difíceis. Também eu corro o risco de ser "lançado para a precariedade".

Esta identificação é obscena, porque a linguagem que a permite é oblíqua.

Muitos ouvintes, tendo ouvido os peritos e achando que falam um português muito mais culto e correcto do que eles, esforçam-se para falar como eles.

Um perito disse:

"Se calhar, seria importante sublinhar uma nota, ao que parece, nomeadamente ao nível da capacidade de resposta, que há que encontrar ritmos de crescimento económico que não têm existido até aqui."

O ouvinte:

"Relativamente a esses dados eu queria ressaltar uma questão que já foi aqui ventilada."

É difícil distingui-los. A única diferença é que os peritos, antes de dizer uma banalidade, colocam tudo no condicional e acrescentam, com muita modéstia, um "se calhar".

Em português o que o perito está a dizer é que, se fôssemos mais ricos, teríamos mais dinheiro. É verdade. O que faz arrancar os cabelos não é o sublinhar das notas ou o encontrar dos ritmos: é o pudor hipotético do "Se calhar, seria".

É pena que se não se digam só vacuidades nos fóruns. Assim escusávamos de nos darmos ao esforço de traduzir. A verdade é que se dizem coisas interessantes, pouco ouvidas ou bem pensadas. Muitas vezes debaixo do mais pesado jargão ou na forma de desabafos monossilábicos.

Não há relação entre falar bem e ter graça. Havendo regra, são as pessoas com mais graça que se exprimem pior. Seja por tentarem falar caro ou por não terem jeito para falar. Já entre as pessoas que nada têm para dizer ou acrescentar, a maioria sabe falar bem, com irrepreensível clareza.

Os rádio-fóruns são a demonstração desta assincronia. É mesmo preciso traduzir. Ou, quando não há paciência ou generosidade, também é bom ouvir os portugueses a falar português como lhes apetece falar. É assim que falamos. É assim a língua portuguesa. Que não é a deles - que é a nossa.

Não é possível mudá-la. Nem é fácil amá-la. Mas há lá qualquer coisa para amar.






2 comentários:

Lou Alma disse...

Paulo, simplesmente adorei este post. A verdade é que tantas vezes as palavras caras e vazias se multiplicam nesses foruns, que o próprio ouvido humano as ignora mesmo que o cerebro tenha interesse na conversa. A essas é que eu chamaria as verdadeiras conversas da treta.

Adoro as cronicas do MEC, obrigado pela partilha.

Paulo Novais disse...

Lou

É realmente excelente. Aliás do MEC nada de estranho.