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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Gato por lebre (cenas de um país á beira mar plantado)

Passadas as férias e o merecido descanso dos portugueses e dos bracarenses em particular, chegamos á recta final do ano que tudo vai decidir para o país e para a cidade.

Setembro é o mês das escolhas, é aqui que Portugal pode dar um passo em frente ou dois passos atrás. A escolha centra-se em dois líderes dos maiores partidos portugueses e, felizmente para a democracia, pode dizer-se que desta vez há mesmo o que os distinga. De uma forma geral não se pode deixar de constatar que a diferença de estilo é brutal. É claro que Sócrates é mais vendável, tem uma imagem mais cuidada, consegue fazer aquele olhar de quem está de facto preocupado com os problemas dos portugueses e até tem tiques que fazem lembrar o Sr. Dr. Do antigo regime. Na substância eles têm a mesma diferença que Sócrates tinha de Santana em 2005... um mente e o outro não!

Se há coisa que eu entendo que as pessoas devem saber fazer é justiça. Lá porque o pais compactuou com o golpe palaciano encetado pelo Dr. Jorge Sampaio para colocar lá o Secretario-Geral do Partido Socialista, não significa que passados quatro anos não possamos perceber e admitir que Santana Lopes tinha razão numa série de temas, só que não disse o que o povo queria ouvir. Aliás, se o Professor Cavaco Silva fosse tipo o Dr. Jorge Sampaio, o governo Sócrates já tinha sido demitido para aí dez vezes, só a contar com aquilo que os Ministros andaram a fazer, porque se englobarmos o Primeiro-Ministro... o número sobe vertiginosamente. Felizmente o actual Presidente da República põe o país á frente do partido.

De qualquer forma todos perceberão que Santana Lopes disse que não era possível baixar impostos, muito menos o IVA, disse que o desemprego ia aumentar, disse que era necessário contenção nas obras publicas e gastos do Estado e disse que era necessário emagrecer o função pública. Sócrates disse que ia baixar os impostos, nomeadamente o IVA, disse que ia criar 500 000 postos de trabalho, disse que ia (aqui não mentiu, mas errou) promover o investimento público. Passados estes anos e olhando apenas para as duas propostas fundamentais, o IVA aumentou, o desemprego proliferou. Resultado, Sócrates mentiu e Santana disse a verdade. Mas mais do que a verdade Santana estava mais certo quando dizia que o caminho era pelo incentivo ao investimento privado, á criação e acima de tudo á manutenção das empresas porque elas sim eram o verdadeiro motor da economia. Sócrates não percebeu isso e, perdoem-me a expressou, enterrou-se.

Hoje temos um Sócrates com tiques de ditador de segunda categoria, com o país a deambular por uma crise que não pode evitar, mas podia ter encarado e passado por ela de outra forma mas, no entanto, com o “Magalhães”, uma Ministra que já sabe o que significam os lenços dos namorados, a promessa de um aeroporto e de um TGV. Ora pois que me parece que estamos bem pior e com o destino traçado de projectos megalómanos que nos vão endividar até á cabeça. Certo é que este é um Sócrates mediático, com imagem e que me parece com capacidade para enganar muito boa gente. Se há coisa que o Primeiro-Ministro tem é uma máquina de campanha brutal, Senão vejamos, aquele outdoor em que aparece no meio das pessoas com o slogan “Juntos Conseguimos” é brutal, desde logo porque é a antítese da acção politica nestes quatro anos de governo... mas o que conta agora é o produto para vender. Tal como a mulher de César, Sócrates só quer parecer. Vejam lá se não se volta a comprar gato por lebre.

Do outro lado temos Manuela Ferreira Leite que é tudo menos mediática, fotogénica ou com um dote especial de comunicação. Associada a ela temos uma estratégia de campanha pouco inovadora e que se centra, tal como em 2005, em dizer a verdade. Não entra em promessas galvanizadoras e só aceita governar assente em bases sólidas e sem ter prometido o que não pode cumprir. Certo é que não seria a minha escolha se pudesse escolher entre todos os actores da cena politica Portuguesa, mas neste caso uso a memória para me lembrar que em 2005 se entrou numa aventura, se comprou o gato que Sampaio quis vender e hoje estamos na situação que se conhece.

A questão coloca-se ao nível da competência, do trabalho e daquele que nós entendemos ser o mais adequado para nos levar á tão ambicionada retoma e prosperidade. Sem shows, sem nomes sonantes para projectos medíocres... enfim, desta vez Portugal deve querer a lebre.

 

Ramiro Brito

In Diário do Minho 01/09/2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Isto não é porreiro pá!

No mês do S. João de Braga a azáfama na cidade, sobretudo no seu coração faz sempre parte da festa. A decoração da Avenida da Liberdade e áreas adjacentes, a instalação das tradicionais diversões na zona exterior do Parque de Exposições de Braga, as farturas, o pão com chouriço e, como não podia deixar de ser, as barraquinhas de venda ambulante. É nestas últimas que reside o tema desta crónica.

Naturalmente, a cidade pede aos habitantes destas zonas mais centrais o sacrifício de suportarem uma movimentação e ruído fora do normal nesta época do ano, no fundo para que toda a cidade possa usufruir desta festa tão única e tradicional dos bracarenses. Cabe á Câmara Municipal de Braga a coordenação e definição territorial dos espaços e dos equipamentos instalados nos mesmos. Aquilo que aconteceu neste ano foi deveras exorbitante e ainda por cima, justificado pelo capricho do Sr. Presidente da Câmara de inaugurar o túnel nesta época. A tradição tem a sua importância e por isso mesmo, manda a tradição que as barraquinhas de venda ambulante sejam colocadas ao longo da Avenida da Liberdade porque lá é que se passa a festa, lá é que a multidão comemora o S. João, com ou sem túnel. A colocação das barraquinhas na Avenida central, dispersas e quase que despejadas de forma aleatória só aconteceu porque sua Excia. o Eng. Mesquita Machado continua a não distinguir as festas do S. João, do período de pré-campanha eleitoral. Pois, é que bastava ter tido o cuidado de planear a intervenção naquela zona com mais cuidado e mais preocupação com os bracarenses e menos com a sua reeleição e quando foi necessário o espaço para montar as referidas barraquinhas, ele estaria disponível e desimpedido. Não sei se o receio de que destruíssem as flores, ou apenas o ego incomensurável de alguém que há muito deixou de respeitar a coisa pública e passou a confundi-la com a coisa privada, sobretudo com a sua própria, levaram a que o caos fosse instalado nas festas mais tradicionais e míticas da cidade. Fica aqui a lição, exmos. Sr. Presidente da Câmara, lamento a desilusão que lhe vou criar mas Braga ainda não é o seu quintal...bem sei que ás vezes parece...mas não é.

Numa outra perspectiva e ainda relacionado com as barraquinhas, assistimos a uma situação realmente constrangedora para quem vive num estado de direito e que conta com as forças de segurança e fiscalização para garantir uma coisa que muitos não dão valor, mas cuja importância económica é vital: a marca.

Não é aceitável que se suba a avenida por um lado e se desça pelo lado oposto e se assista a um rol infindável de contrafacção á venda de forma desinibida, com as autoridades policiais ali á beira, como se nada fosse. A marca e os direitos de imagem são um património vital para as empresas e respectivo produtos. As economias paralelas, de cópias que não respeitam estes direitos básicos de quem cria, têm efeitos muitas vezes devastadores para as empresas que produzem e comercializam os produtos originais. Já para não falar na qualidade que coloca a marca num patamar muitas vezes incomparável.

Para que se perceba melhor eu passo a explicar. O processo que criação e fabrico de produtos custa muito dinheiro, faz parte do investimento suportado pelo empresário para se lançar no mercado e criar o seu próprio carácter distintivo da concorrência. Este património é um factor vital na economia, sobretudo nos dias de hoje com a concorrência feroz a que assistimos á escala global. Uma das apostas inequívoca dos governos, quer de direita quer de esquerda é a marca portuguesa. Claro que uns fazem-no com produtos obsoletos como o Magalhães...mas o princípio é o mesmo, a execução é que é diferente.

É de facto ridículo que a ASAE que tanto aparato usa para, muitas vezes, fazer intervenções despropositadas e completamente empaladas, não tenha aqui uma intervenção de fundo. É que estes comerciantes alugam os espaços e não são sujeitos a qualquer inspecção dos produtos que vendem. Hoje em dia em Portugal fecham-se espaços a torto e a direito, arruínam-se negócios, aparecem senhores de metralhadora á porta das empresas para verificar tudo e mais alguma coisa e depois qualquer comerciante ambulante vai para a rua, instala-se, paga a licença e comercializa apenas produtos de contrafacção. Onde anda a ASAE? A fumar charutos nos casinos, a fechar espaços centenários ou apenas a dar espectáculo para inglês ver? Esta é uma situação completamente absurda e a Câmara Municipal de Braga que licencia os espaços tapa os olhos e finge que não é nada com ela...

Usando o vocabulário do Sr. Primeiro-Ministro...isto não é porreiro pá!

 

Ramiro Brito

In Diário do Minho de 30/06/2009