O ministro da Economia e Emprego, Álvaro Santos Pereira, disse hoje que o programa de 100 milhões de euros que o Governo vai lançar para desempregados há mais de seis meses é o "primeiro passo passo para diminuir o desemprego".
O governante, que falava à margem da cerimónia de abertura do ano letivo das escolas de hotelaria, que teve lugar em Lisboa, explicou que aquele programa vai permitir a 35 mil desempregados receber formação nas empresas.
"As empresas vão receber o equivalente a um indexante de apoio social correspondente a 420 euros pela formação", adiantou, remetendo mais pormenores para o anúncio desta medida.
"Este é o primeiro passo para diminuir o desemprego", frisou, acrescentando que o país tem 300 mil desempregados de longa duração.
O programa de 100 milhões de euros tem como objetivo promover junto das empresas o emprego de desempregados há mais de seis meses.
http://tv2.rtp.pt/noticias/
27/9/2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Não será cedo?
Os militantes da secção de Braga do Partido Socialista vão ser convidados esta semana a apoiarem uma eventual candidatura de António Braga à presidência da Câmara Municipal de Braga nas eleições autárquicas de 2013.
O convite vai chegar às mãos dos militantes em forma de carta, documento que tem como signatários António Sousa Fernandes, Agostinho Domingues e Catarina Ribeiro, e em que estes solicitam, publicamente, a António Braga «se manifeste disponível para corporizar este projecto, aceitando construir uma candidatura agregadora dos militantes e simpatizantes socialistas». (...)
in Diário do Minho, 27 de Setembro de 2011
O convite vai chegar às mãos dos militantes em forma de carta, documento que tem como signatários António Sousa Fernandes, Agostinho Domingues e Catarina Ribeiro, e em que estes solicitam, publicamente, a António Braga «se manifeste disponível para corporizar este projecto, aceitando construir uma candidatura agregadora dos militantes e simpatizantes socialistas». (...)
in Diário do Minho, 27 de Setembro de 2011
PP quer revogar lei do aborto em Espanha
Uma alta dirigente do Partido Popular (PP) espanhol confirmou que o partido tenciona revogar a actual lei do aborto em Espanha, em vigor há menos de um ano, se vencer as eleições de 20 de Novembro.
Ana Pastor, ex-ministra da Saúde e coordenadora da participação social do PP - partido que as sondagens dão como claro vencedor no dia 20 de Novembro - considera que a lei é "injusta e desnecessária".
Pastor recordou que o PP mantém a decorrer o recurso contra a lei junto do Tribunal Constitucional e, por isso, se for eleito, o partido vai avançar com a revogação da lei.(...)
por Lusa
Ana Pastor, ex-ministra da Saúde e coordenadora da participação social do PP - partido que as sondagens dão como claro vencedor no dia 20 de Novembro - considera que a lei é "injusta e desnecessária".
Pastor recordou que o PP mantém a decorrer o recurso contra a lei junto do Tribunal Constitucional e, por isso, se for eleito, o partido vai avançar com a revogação da lei.(...)
por Lusa
As cruzes podem estar nas paredes das escolas
O jornal Público publica hoje uma entrevista a Joseph Weiler onde o especialista em direito constitucional afirma que "um Estado que proíbe a cruz na parede também não é neutro".
Joseph Weiler é um judeu convicto e defendeu perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos o direito de a Itália ter crucifixos nas paredes das escolas e o direito da França a não os ter. E disse ao jornal Público que esse pluralismo europeu é que é bom.
http://www.dn.pt/
Joseph Weiler é um judeu convicto e defendeu perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos o direito de a Itália ter crucifixos nas paredes das escolas e o direito da França a não os ter. E disse ao jornal Público que esse pluralismo europeu é que é bom.
http://www.dn.pt/
Actualidade dum texto de 2009
Urbanismo e pobreza
Onde se lê "Lisboa", ler "Braga".
Urbanismo e pobreza, por MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
"Sei que Lisboa tem uma considerável percentagem de pobres. Sei que não constituem uma categoria homogénea: há-os de todos os géneros, tradicionais, novos e novíssimos. Sei que por cá existem muitos doentes pobres e pobres doentes, que a morbilidade da rua aumenta sem que ninguém a contabilize. Sei das "cidades ocultas" dentro desta Lisboa que vemos. Não tenho números actualizados apesar de se terem criado instrumentos cuja função principal é a de analisar e contabilizar esta realidade: onde está a famosa rede social de Lisboa? O que faz o Observatório de Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa?
"Fala-se de pobreza e políticas públicas mas raramente pensamos no papel do poder autárquico nesta matéria. Em ano eleitoral é muito importante que os candidatos às câmaras incluam o tema nos seus programas, em vez de sucumbirem à tentação da obra pública, empreitadas de "modernidade" que pouco contribuem para o desenvolvimento e competitividade. Mas a opacidade da pobreza torna-a uma abstracção possível e a sua natureza triste impede-a de competir com a visibilidade impactante de um túnel…
"Não há pobreza que possa ser resolvida com pacotes governamentais. É o que podemos concluir em Portugal ao fim de quase duas décadas de esforços malsucedidos, programas com baixíssimos níveis de eficiência e uma cultura de subsídio-dependência aviltante. O Estado não tem capacidade ou vocação para um trabalho a nível micro, o que leva a que os recursos, humanos e financeiros, se esgotem no combate aos efeitos, deixando as causas por erradicar.
"O gestor da cidade tem hoje um papel decisivo. Um mau urbanismo é o maior factor de cristalização das desigualdades, alimentando uma ininterrupta renovação geracional da pobreza e da exclusão. Tanto mais quanto as sociedades modernas sofreram profundas mutações que alteraram negativamente a própria sociabilidade: a reconfiguração do modo de estarmos juntos; a transformação da percepção do espaço e do tempo (tudo chega sem que seja necessário partir); uma nova matriz de ordem urbana na qual os cidadãos circulam mas já não se encontram, estão comunicáveis mas não se reúnem…
"Há que inovar face a modelos de intervenção esgotados, promover abordagens interdisciplinares, construir redes de proximidade às pessoas, aos problemas e às suas causas e estabelecer parcerias com o terceiro sector que assegurem a continuidade e sustentabilidade da intervenção. E ter uma percepção clara de outros fenómenos que requerem outras respostas: as novas doenças, o envelhecimento demográfico, a imigração e as dificuldades associadas aos processos de integração, a info-exclusão, etc.
"Estes grupos têm, à partida, um factor ambiental e espacial negativo por se inserirem em comunidades marginais com tendência para a guetização, sediadas em territórios urbanos degradados e especialmente segregados. São as chamadas "armadilhas de desigualdade" cujo resultado é o da falta de mobilidade intergeracional.
"Tal como se evoluiu do conceito da reabilitação urbana para o de revitalização urbana, com intervenções específicas e interdisciplinares a nível dos chamados territórios deprimidos e de zonas urbanas desertificadas - como os cascos históricos com população idosa e isolada - também a experiência das últimas décadas em matéria de realojamento demonstraram a necessidade de conjugar construção de habitação (que só por si não constitui uma política) com objectivos de inclusão social, só possível através da disseminação de grupos populacionais mais problemáticos por zonas urbanas consolidadas versus a sua concentração periférica. E se antes se podia ignorar a importância da saúde urbana ou fazer tábua rasa do objectivo cidade saudável, hoje já não.
"Lisboa vai a votos. Precisamos de uma equipa com inteligência, sabedoria, lucidez e coragem. Porque vai ser preciso fazer, desfazer e refazer, com prudência e responsabilidade. Isto não é a Disneylândia."
in "Diário de Notícias", 30.7.2009
Onde se lê "Lisboa", ler "Braga".
Urbanismo e pobreza, por MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
"Sei que Lisboa tem uma considerável percentagem de pobres. Sei que não constituem uma categoria homogénea: há-os de todos os géneros, tradicionais, novos e novíssimos. Sei que por cá existem muitos doentes pobres e pobres doentes, que a morbilidade da rua aumenta sem que ninguém a contabilize. Sei das "cidades ocultas" dentro desta Lisboa que vemos. Não tenho números actualizados apesar de se terem criado instrumentos cuja função principal é a de analisar e contabilizar esta realidade: onde está a famosa rede social de Lisboa? O que faz o Observatório de Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa?
"Fala-se de pobreza e políticas públicas mas raramente pensamos no papel do poder autárquico nesta matéria. Em ano eleitoral é muito importante que os candidatos às câmaras incluam o tema nos seus programas, em vez de sucumbirem à tentação da obra pública, empreitadas de "modernidade" que pouco contribuem para o desenvolvimento e competitividade. Mas a opacidade da pobreza torna-a uma abstracção possível e a sua natureza triste impede-a de competir com a visibilidade impactante de um túnel…
"Não há pobreza que possa ser resolvida com pacotes governamentais. É o que podemos concluir em Portugal ao fim de quase duas décadas de esforços malsucedidos, programas com baixíssimos níveis de eficiência e uma cultura de subsídio-dependência aviltante. O Estado não tem capacidade ou vocação para um trabalho a nível micro, o que leva a que os recursos, humanos e financeiros, se esgotem no combate aos efeitos, deixando as causas por erradicar.
"O gestor da cidade tem hoje um papel decisivo. Um mau urbanismo é o maior factor de cristalização das desigualdades, alimentando uma ininterrupta renovação geracional da pobreza e da exclusão. Tanto mais quanto as sociedades modernas sofreram profundas mutações que alteraram negativamente a própria sociabilidade: a reconfiguração do modo de estarmos juntos; a transformação da percepção do espaço e do tempo (tudo chega sem que seja necessário partir); uma nova matriz de ordem urbana na qual os cidadãos circulam mas já não se encontram, estão comunicáveis mas não se reúnem…
"Há que inovar face a modelos de intervenção esgotados, promover abordagens interdisciplinares, construir redes de proximidade às pessoas, aos problemas e às suas causas e estabelecer parcerias com o terceiro sector que assegurem a continuidade e sustentabilidade da intervenção. E ter uma percepção clara de outros fenómenos que requerem outras respostas: as novas doenças, o envelhecimento demográfico, a imigração e as dificuldades associadas aos processos de integração, a info-exclusão, etc.
"Estes grupos têm, à partida, um factor ambiental e espacial negativo por se inserirem em comunidades marginais com tendência para a guetização, sediadas em territórios urbanos degradados e especialmente segregados. São as chamadas "armadilhas de desigualdade" cujo resultado é o da falta de mobilidade intergeracional.
"Tal como se evoluiu do conceito da reabilitação urbana para o de revitalização urbana, com intervenções específicas e interdisciplinares a nível dos chamados territórios deprimidos e de zonas urbanas desertificadas - como os cascos históricos com população idosa e isolada - também a experiência das últimas décadas em matéria de realojamento demonstraram a necessidade de conjugar construção de habitação (que só por si não constitui uma política) com objectivos de inclusão social, só possível através da disseminação de grupos populacionais mais problemáticos por zonas urbanas consolidadas versus a sua concentração periférica. E se antes se podia ignorar a importância da saúde urbana ou fazer tábua rasa do objectivo cidade saudável, hoje já não.
"Lisboa vai a votos. Precisamos de uma equipa com inteligência, sabedoria, lucidez e coragem. Porque vai ser preciso fazer, desfazer e refazer, com prudência e responsabilidade. Isto não é a Disneylândia."
in "Diário de Notícias", 30.7.2009
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Vou à minha terra
Entrevista de Bento XVI com jornalistas rumo a Berlim
Respostas durante o voo papal
BERLIM, quinta-feira, 22 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos a transcrição da entrevista que Bento XVI concedeu hoje aos jornalistas que o acompanharam no avião rumo a Berlim, para sua visita apostólica à Alemanha.
* * *
Santidade, permita-nos, no começo, fazer-lhe uma pergunta muito pessoal. Até que ponto o Papa Bento XVI ainda se sente alemão? Quais são os aspectos em que – talvez cada vez menos – sua origem alemã o influencia?
Bento XVI: Hölderlin disse, uma vez: “O que mais influencia é o nascimento”, e isso, claro, eu também experimento. Nasci na Alemanha e não se pode nem se deve cortar a raiz. Recebi minha formação cultural na Alemanha, minha língua é o alemão e a língua é a maneira como o espírito vive e age, e toda a minha formação cultural aconteceu nesse ambiente. Quando faço teologia, eu o faço a partir da forma interior que aprendi nas universidades alemãs e infelizmente tenho de admitir que continuo lendo mais livros alemães que em outros idiomas. Por este motivo, no meu jeito de ser, o ser alemão é muito forte. A pertença à sua história, com sua grandeza e fraquezas, não pode e não deve ser eliminada. Para um cristão, no entanto, acrescenta-se outro elemento. Com o Batismo, ele nasce novamente, nasce em um novo povo, que está composto por todos os povos, um povo que abrange todos os povos e todas as culturas e ao qual, a partir desse momento, ele pertence de verdade, sem que isso lhe faça perder sua origem natural. Então, quando se assume uma responsabilidade grande, como acontece no meu caso, já que tenho a responsabilidade suprema neste novo povo, é evidente que a pessoa mergulha cada vez mais nele. A raiz se torna uma árvore que cresce em todas as direções e o fato de pertencer a esta grande comunidade da Igreja Católica, um povo composto por todos os povos, torna-se cada vez mais viva e profunda, forja toda a existência, sem renunciar, por isso, ao passado. Eu diria, portanto, que a origem permanece, permanece a origem cultural, permanece também o amor particular e a responsabilidade particular, mas integrados e ampliados em uma pertença mais ampla, na civitas Dei, como diria Santo Agostinho, no povo de todos os povos, no qual todos nós somos irmãos e irmãs.
Santo Padre, nos últimos anos, houve um aumento dos abandonos na Igreja, em parte devido aos abusos cometidos contra menores por membros do clero. Qual é o seu sentimento sobre este fenômeno? O que o senhor diria a quem quer abandonar a Igreja?
Bento XVI: Antes de tudo, temos de distinguir o motivo específico pelo qual se sentem escandalizados por estes crimes registrados nos últimos tempos. Posso compreender que, à luz dessas informações, sobretudo se forem pessoas próximas, a pessoa diga: “Esta já não é a minha Igreja. A Igreja era, para mim, força de humanização e de moralização. Se os representantes da Igreja fazem o contrário, já não posso viver com esta Igreja”. Esta é uma situação específica. Geralmente, os motivos são múltiplos, no contexto do secularismo da nossa sociedade. Em geral, estes abandonos são o último passo de um longo trajeto de afastamento da Igreja. Neste contexto, parece-me importante perguntar-se: “Por que estou na Igreja? Estou na Igreja como em uma associação esportiva, uma associação cultural etc., na qual encontro resposta para os meus interesses e, se não for assim, vou embora? Ou estar na Igreja é algo mais profundo?”. Eu diria que é importante reconhecer que estar na Igreja não quer dizer fazer parte de uma associação, mas estar na rede do Senhor, que pesca peixes bons e maus das águas da morte, para levá-los às terras da vida.
Pode ser que, nesta rede, eu esteja junto a peixes malvados e sinto muito, mas é verdade que não estou por causa deste ou daquele outro, mas porque é a rede do Senhor, que é algo diferente de todas as associações humanas, uma rede que toca o fundamento do meu ser. Falando com essas pessoas, acho que temos de ir até o fundo da questão: o que é a Igreja? Qual é a sua diversidade? Por que estou na Igreja, ainda que se deem escândalos terríveis? Assim, é possível renovar a consciência do caráter específico de ser Igreja, povo de todos os povos, que é povo de Deus; e aprender, dessa maneira, a suportar também os escândalos e trabalhar contra os escândalos, fazendo parte precisamente dessa grande rede do Senhor.
Não é a primeira vez que grupos de pessoas se manifestam contra a sua chegada a um país. A relação da Alemanha com Roma era tradicionalmente crítica, em parte inclusive dentro do próprio âmbito católico. Os temas de controvérsia são conhecidos há muito tempo: o preservativo, a Eucaristia, o celibato. Antes da sua viagem, inclusive parlamentares assumiram posições de crítica. Mas antes da sua viagem à Grã-Bretanha, a atmosfera tampouco parecia amigável e, depois, tudo saiu bem. Com que sentimentos o senhor empreende esta viagem à sua pátria e se dirigirá aos alemães?
Bento XVI: Antes de mais nada, eu diria que é algo normal que, em uma sociedade livre e em uma época secularizada, haja posições contra uma visita do Papa. É justo que expressem sua contrariedade na frente de todos: faz parte da nossa liberdade e temos de reconhecer que o secularismo, e precisamente a oposição ao catolicismo, é forte nas nossas sociedades. Quando estas oposições se expressam de uma maneira civilizada, não se pode dizer nada contra. Por outro lado, também é verdade que há muitas expectativas e muito amor pelo Papa. Na Alemanha, há várias dimensões desta oposição: a antiga oposição entre cultura germânica e românica, os choques da história... Além disso, estamos no país da Reforma, que acentuou estes contrastes. Mas se dá também um grande consenso sobre a fé católica, uma convicção cada vez maior de que, na nossa época, temos necessidade de uma força moral. Temos necessidade de uma presença de Deus no nosso tempo. Junto à oposição, que considero normal, há muita gente que me espera com alegria, que espera uma festa de fé, estar juntos, a alegria de conhecer a Deus e viver juntos no futuro, que Deus nos conduz pela mão e nos mostra o caminho. Por este motivo, vou com alegria à minha Alemanha e me sinto feliz por levar a mensagem de Cristo à minha terra.
Uma última pergunta. Santo Padre, o senhor visitará Erfurt, o antigo convento do reformador Martinho Lutero. Os cristãos evangélicos – e os católicos em diálogo com eles – estão se preparando para comemorar o 50º centenário da Reforma. Com que mensagem, com que pensamentos o senhor está se preparando para esse encontro? Esta viagem pode ser interpretada como um gesto fraterno com os irmãos e irmãs separados de Roma?
Bento XVI: Quando aceitei o convite para realizar esta viagem, para mim era evidente que o ecumenismo com os nossos amigos evangélicos deveria ser um ponto forte e central desta viagem. Vivemos em uma época de secularismo, como já comentei, na qual os cristãos, juntos, têm a missão de tornar presente a mensagem de Deus, a mensagem de Cristo, fazer que crer seja possível, avançar com estas grandes ideias, a verdade. Dessa maneira, estar juntos, católicos e evangélicos, torna-se um elemento fundamental para a nossa época, ainda que institucionalmente não estejamos perfeitamente unidos e ainda que permaneçam grandes problemas, problemas no fundamento da fé em Cristo, no Deus trinitário e no homem, como imagem de Deus. Estamos unidos e devemos mostrar isso ao mundo; e aprofundar nesta unidade é essencial neste momento histórico. Por este motivo, sinto-me muito agradecido com os nossos amigos, irmãos e irmãs, protestantes, que tornaram possível um gesto muito significativo: o encontro no mosteiro onde Lutero começou seu caminho teológico, a oração na igreja onde ele foi ordenado sacerdote, e falar juntos sobre a nossa responsabilidade de cristãos nesta época. Estou muito feliz por poder manifestar esta unidade fundamental, que somos irmãos e irmãs e trabalhamos juntos pelo bem da humanidade, anunciando a alegre mensagem de Cristo, do Deus que tem um rosto humano e que fala connosco.
[Transcrição realizada pela Rádio Vaticano e pelo Centro Televisivo Vaticano.
Tradução de Aline Banchieri.
Respostas durante o voo papal
BERLIM, quinta-feira, 22 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos a transcrição da entrevista que Bento XVI concedeu hoje aos jornalistas que o acompanharam no avião rumo a Berlim, para sua visita apostólica à Alemanha.
* * *
Santidade, permita-nos, no começo, fazer-lhe uma pergunta muito pessoal. Até que ponto o Papa Bento XVI ainda se sente alemão? Quais são os aspectos em que – talvez cada vez menos – sua origem alemã o influencia?
Bento XVI: Hölderlin disse, uma vez: “O que mais influencia é o nascimento”, e isso, claro, eu também experimento. Nasci na Alemanha e não se pode nem se deve cortar a raiz. Recebi minha formação cultural na Alemanha, minha língua é o alemão e a língua é a maneira como o espírito vive e age, e toda a minha formação cultural aconteceu nesse ambiente. Quando faço teologia, eu o faço a partir da forma interior que aprendi nas universidades alemãs e infelizmente tenho de admitir que continuo lendo mais livros alemães que em outros idiomas. Por este motivo, no meu jeito de ser, o ser alemão é muito forte. A pertença à sua história, com sua grandeza e fraquezas, não pode e não deve ser eliminada. Para um cristão, no entanto, acrescenta-se outro elemento. Com o Batismo, ele nasce novamente, nasce em um novo povo, que está composto por todos os povos, um povo que abrange todos os povos e todas as culturas e ao qual, a partir desse momento, ele pertence de verdade, sem que isso lhe faça perder sua origem natural. Então, quando se assume uma responsabilidade grande, como acontece no meu caso, já que tenho a responsabilidade suprema neste novo povo, é evidente que a pessoa mergulha cada vez mais nele. A raiz se torna uma árvore que cresce em todas as direções e o fato de pertencer a esta grande comunidade da Igreja Católica, um povo composto por todos os povos, torna-se cada vez mais viva e profunda, forja toda a existência, sem renunciar, por isso, ao passado. Eu diria, portanto, que a origem permanece, permanece a origem cultural, permanece também o amor particular e a responsabilidade particular, mas integrados e ampliados em uma pertença mais ampla, na civitas Dei, como diria Santo Agostinho, no povo de todos os povos, no qual todos nós somos irmãos e irmãs.
Santo Padre, nos últimos anos, houve um aumento dos abandonos na Igreja, em parte devido aos abusos cometidos contra menores por membros do clero. Qual é o seu sentimento sobre este fenômeno? O que o senhor diria a quem quer abandonar a Igreja?
Bento XVI: Antes de tudo, temos de distinguir o motivo específico pelo qual se sentem escandalizados por estes crimes registrados nos últimos tempos. Posso compreender que, à luz dessas informações, sobretudo se forem pessoas próximas, a pessoa diga: “Esta já não é a minha Igreja. A Igreja era, para mim, força de humanização e de moralização. Se os representantes da Igreja fazem o contrário, já não posso viver com esta Igreja”. Esta é uma situação específica. Geralmente, os motivos são múltiplos, no contexto do secularismo da nossa sociedade. Em geral, estes abandonos são o último passo de um longo trajeto de afastamento da Igreja. Neste contexto, parece-me importante perguntar-se: “Por que estou na Igreja? Estou na Igreja como em uma associação esportiva, uma associação cultural etc., na qual encontro resposta para os meus interesses e, se não for assim, vou embora? Ou estar na Igreja é algo mais profundo?”. Eu diria que é importante reconhecer que estar na Igreja não quer dizer fazer parte de uma associação, mas estar na rede do Senhor, que pesca peixes bons e maus das águas da morte, para levá-los às terras da vida.
Pode ser que, nesta rede, eu esteja junto a peixes malvados e sinto muito, mas é verdade que não estou por causa deste ou daquele outro, mas porque é a rede do Senhor, que é algo diferente de todas as associações humanas, uma rede que toca o fundamento do meu ser. Falando com essas pessoas, acho que temos de ir até o fundo da questão: o que é a Igreja? Qual é a sua diversidade? Por que estou na Igreja, ainda que se deem escândalos terríveis? Assim, é possível renovar a consciência do caráter específico de ser Igreja, povo de todos os povos, que é povo de Deus; e aprender, dessa maneira, a suportar também os escândalos e trabalhar contra os escândalos, fazendo parte precisamente dessa grande rede do Senhor.
Não é a primeira vez que grupos de pessoas se manifestam contra a sua chegada a um país. A relação da Alemanha com Roma era tradicionalmente crítica, em parte inclusive dentro do próprio âmbito católico. Os temas de controvérsia são conhecidos há muito tempo: o preservativo, a Eucaristia, o celibato. Antes da sua viagem, inclusive parlamentares assumiram posições de crítica. Mas antes da sua viagem à Grã-Bretanha, a atmosfera tampouco parecia amigável e, depois, tudo saiu bem. Com que sentimentos o senhor empreende esta viagem à sua pátria e se dirigirá aos alemães?
Bento XVI: Antes de mais nada, eu diria que é algo normal que, em uma sociedade livre e em uma época secularizada, haja posições contra uma visita do Papa. É justo que expressem sua contrariedade na frente de todos: faz parte da nossa liberdade e temos de reconhecer que o secularismo, e precisamente a oposição ao catolicismo, é forte nas nossas sociedades. Quando estas oposições se expressam de uma maneira civilizada, não se pode dizer nada contra. Por outro lado, também é verdade que há muitas expectativas e muito amor pelo Papa. Na Alemanha, há várias dimensões desta oposição: a antiga oposição entre cultura germânica e românica, os choques da história... Além disso, estamos no país da Reforma, que acentuou estes contrastes. Mas se dá também um grande consenso sobre a fé católica, uma convicção cada vez maior de que, na nossa época, temos necessidade de uma força moral. Temos necessidade de uma presença de Deus no nosso tempo. Junto à oposição, que considero normal, há muita gente que me espera com alegria, que espera uma festa de fé, estar juntos, a alegria de conhecer a Deus e viver juntos no futuro, que Deus nos conduz pela mão e nos mostra o caminho. Por este motivo, vou com alegria à minha Alemanha e me sinto feliz por levar a mensagem de Cristo à minha terra.
Uma última pergunta. Santo Padre, o senhor visitará Erfurt, o antigo convento do reformador Martinho Lutero. Os cristãos evangélicos – e os católicos em diálogo com eles – estão se preparando para comemorar o 50º centenário da Reforma. Com que mensagem, com que pensamentos o senhor está se preparando para esse encontro? Esta viagem pode ser interpretada como um gesto fraterno com os irmãos e irmãs separados de Roma?
Bento XVI: Quando aceitei o convite para realizar esta viagem, para mim era evidente que o ecumenismo com os nossos amigos evangélicos deveria ser um ponto forte e central desta viagem. Vivemos em uma época de secularismo, como já comentei, na qual os cristãos, juntos, têm a missão de tornar presente a mensagem de Deus, a mensagem de Cristo, fazer que crer seja possível, avançar com estas grandes ideias, a verdade. Dessa maneira, estar juntos, católicos e evangélicos, torna-se um elemento fundamental para a nossa época, ainda que institucionalmente não estejamos perfeitamente unidos e ainda que permaneçam grandes problemas, problemas no fundamento da fé em Cristo, no Deus trinitário e no homem, como imagem de Deus. Estamos unidos e devemos mostrar isso ao mundo; e aprofundar nesta unidade é essencial neste momento histórico. Por este motivo, sinto-me muito agradecido com os nossos amigos, irmãos e irmãs, protestantes, que tornaram possível um gesto muito significativo: o encontro no mosteiro onde Lutero começou seu caminho teológico, a oração na igreja onde ele foi ordenado sacerdote, e falar juntos sobre a nossa responsabilidade de cristãos nesta época. Estou muito feliz por poder manifestar esta unidade fundamental, que somos irmãos e irmãs e trabalhamos juntos pelo bem da humanidade, anunciando a alegre mensagem de Cristo, do Deus que tem um rosto humano e que fala connosco.
[Transcrição realizada pela Rádio Vaticano e pelo Centro Televisivo Vaticano.
Tradução de Aline Banchieri.
GNR - Campo da Vinha
Exmos. Sr. Deputados,
No início deste mandato autárquico a Câmara decidiu remodelar o edifício do antigo quartel da GNR, no Campo da Vinha. Penso que na altura houve um consenso e que se seguia para um Concurso – direccionado para os arquitectos de Braga. Qual não é a nossa surpresa quando assistimos à entrega do projecto sem concurso! Não se podia ter feito um concurso por convites, ultrapassando as dificuldades que terão aparecido? Por que é que se dá o dito pelo não dito? Que transparência há neste processo? Que imagem dá a Câmara para as pessoas?
Temos que ter conhecimento e consciência do papel do político. Citando Van Thuán, temos que mostrar credibilidade; que trabalhamos para o bem comum e não para diferentes interesses e o que nos mantemos fielmente coerentes, com uma coerência constante nos compromissos na política; com coerência firme entre suas palavras e suas acções; com coerência que honra e respeita as promessas eleitorais. Temos também de avançar para uma política que está comprometida na realização de uma mudança radical, e a faz lutando contra a perversão intelectual; o faz sem chamar bem o que é mal.
Naturalmente que, como políticos, temos que saber escutar, que saber escutar o povo, antes durante e depois das eleições; que saber escutar a própria consciência. Assim, a nossa actividade trará às pessoas que em nós cofiaram certeza, segurança e eficácia.
A nossa política não tem que ter medo: que não tem medo, antes de tudo, da verdade. A verdade não precisa de votos!
Quando os responsáveis políticos da Câmara prometem uma coisa e fazem outra falham perante as pessoas e minam a sua credibilidade.
N. Oliveira Dias
( Grupo parlamentar do CDS )
Ponto 4 da Ordem de Trabalhos da
Assembleia Municipal de 16 de Setembro
No início deste mandato autárquico a Câmara decidiu remodelar o edifício do antigo quartel da GNR, no Campo da Vinha. Penso que na altura houve um consenso e que se seguia para um Concurso – direccionado para os arquitectos de Braga. Qual não é a nossa surpresa quando assistimos à entrega do projecto sem concurso! Não se podia ter feito um concurso por convites, ultrapassando as dificuldades que terão aparecido? Por que é que se dá o dito pelo não dito? Que transparência há neste processo? Que imagem dá a Câmara para as pessoas?
Temos que ter conhecimento e consciência do papel do político. Citando Van Thuán, temos que mostrar credibilidade; que trabalhamos para o bem comum e não para diferentes interesses e o que nos mantemos fielmente coerentes, com uma coerência constante nos compromissos na política; com coerência firme entre suas palavras e suas acções; com coerência que honra e respeita as promessas eleitorais. Temos também de avançar para uma política que está comprometida na realização de uma mudança radical, e a faz lutando contra a perversão intelectual; o faz sem chamar bem o que é mal.
Naturalmente que, como políticos, temos que saber escutar, que saber escutar o povo, antes durante e depois das eleições; que saber escutar a própria consciência. Assim, a nossa actividade trará às pessoas que em nós cofiaram certeza, segurança e eficácia.
A nossa política não tem que ter medo: que não tem medo, antes de tudo, da verdade. A verdade não precisa de votos!
Quando os responsáveis políticos da Câmara prometem uma coisa e fazem outra falham perante as pessoas e minam a sua credibilidade.
N. Oliveira Dias
( Grupo parlamentar do CDS )
Ponto 4 da Ordem de Trabalhos da
Assembleia Municipal de 16 de Setembro
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
"Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político” Bento XVI
Bento XVI apela à defesa da “ecologia humana”
Papa recordou aos deputados alemães a herança cristã da Europa, alertando para os perigos de uma visão puramente positivista da sociedade.
Num discurso acutilante, e em algumas partes quase académico, o Papa tocou em vários dos assuntos que têm marcado o seu pontificado, como o relativismo, a relação entre fé e razão e o património cristão da Europa.
Com um raciocínio que partiu de Salomão, que na altura da sua coroação apenas pediu a Deus um coração dócil e a capacidade de distinguir entre o bem e o mal, o Papa elaborou sobre a necessidade do poder político se submeter ao direito. A este propósito recordou, de forma enfática, o regime Nazi naquele país.
“Nós, alemães, sabemos pela nossa experiência que estas palavras não são um fútil espantalho. Experimentámos a separação entre o poder e o direito, o poder colocar-se contra o direito, o seu espezinhar o direito, de tal modo que o Estado se tornara o instrumento para a destruição do direito: tornara-se uma banda de salteadores muito bem organizada, que podia ameaçar o mundo inteiro e impeli-lo até à beira do precipício. Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político”, advertiu Bento XVI.
Daqui o Papa prosseguiu, argumentando contra uma visão estritamente positivista do direito. A maior parte dos assuntos podem depender da opinião da maioria, explicou, mas: “é evidente que, nas questões fundamentais do direito em que está em jogo a dignidade do homem e da humanidade, o princípio maioritário não basta”. Aqui, mais uma vez o Papa tocou no assunto do regime nazi, elogiando todos aqueles que lhe resistiram, não obstante estarem a agir contra a lei da altura: “Com base nesta convicção, os combatentes da resistência agiram contra o regime nazista e contra outros regimes totalitários, prestando assim um serviço ao direito e à humanidade inteira”.
A novidade do Cristianismo
Historicamente, afirma Bento XVI, a fonte da legislação era a religião. Mas longe de pedir o regresso desse período, o Papa elogia a novidade trazida à história pelo Cristianismo, que rompeu com essa visão, apelando antes à harmonia entre a natureza e a razão como fontes do direito, uma ideia que já se debatia nos círculos filosóficos desde o século II antes de Cristo.
Esta novidade, explicou Bento XVI aos deputados alemães, teve consequências históricas cruciais: “Desta ligação pré-cristã entre direito e filosofia parte o caminho que leva, através da Idade Média cristã, ao desenvolvimento jurídico do Iluminismo até à Declaração dos Direitos Humanos e depois à nossa Lei Fundamental alemã, pela qual o nosso povo reconheceu, em 1949, «os direitos invioláveis e inalienáveis do homem como fundamento de toda a comunidade humana, da paz e da justiça no mundo».”
A noção de direito natural não é, portanto, uma mera curiosidade católica, explicou o Papa, mas sim um dos fundamentos da cultura e da civilização europeia. A visão meramente positivista do mundo e da sociedade põem em causa este conceito, com grandes riscos para a sociedade. “Onde a razão positivista se considera como a única cultura suficiente, relegando todas as outras realidades culturais para o estado de subculturas, aquela diminui o homem, antes, ameaça a sua humanidade. Digo isto pensando precisamente na Europa, onde vastos ambientes procuram reconhecer apenas o positivismo como cultura comum e como fundamento comum para a formação do direito, enquanto todas as outras convicções e os outros valores da nossa cultura são reduzidos ao estado de uma subcultura”.
Ecologia humana
Um reflexo desta ameaça encontra-se na ecologia, explica o Papa. “Diria que o aparecimento do movimento ecológico na política alemã (…) foi, e continua a ser, um grito que anela por ar fresco, um grito que não se pode ignorar nem acantonar, porque se vislumbra nele muita irracionalidade. Pessoas jovens deram-se conta de que, nas nossas relações com a natureza, há algo que não está bem; que a matéria não é apenas um material para nossa feitura, mas a própria terra traz em si a sua dignidade e devemos seguir as suas indicações”.
A esta ideia, que certamente terá ressoado junto dos deputados, Bento XVI fez seguir a sua estocada final, o apelo à defesa daquilo a que chama, “ecologia humana”.
“Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando ele escuta a natureza, respeita-a e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana”, afirmou.
As palavras de Bento XVI foram escutadas com muita atenção pelos mais de 500 deputados presentes, mas recorde-se que a sala não se encontrava cheia. Cerca de uma centena de deputados anunciaram publicamente que se iriam ausentar da sessão em protesto contra a presença do Papa naquele espaço e as posições morais da Igreja.
Fora do parlamento uma manifestação convocada por uma panóplia de organizações reuniu cerca de 15 mil pessoas, entre os quais activistas homossexuais. O próprio presidente da câmara de Berlim, homossexual assumido, terá lamentado não poder participar na manifestação, precisamente por estar ocupado com a tarefa de receber o Papa na cidade.
Findo o discurso aos deputados alemães Bento XVI encontra-se com a comunidade judaica, ainda dentro do edifício do parlamento.
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=95&did=173887
Papa recordou aos deputados alemães a herança cristã da Europa, alertando para os perigos de uma visão puramente positivista da sociedade.
Num discurso acutilante, e em algumas partes quase académico, o Papa tocou em vários dos assuntos que têm marcado o seu pontificado, como o relativismo, a relação entre fé e razão e o património cristão da Europa.
Com um raciocínio que partiu de Salomão, que na altura da sua coroação apenas pediu a Deus um coração dócil e a capacidade de distinguir entre o bem e o mal, o Papa elaborou sobre a necessidade do poder político se submeter ao direito. A este propósito recordou, de forma enfática, o regime Nazi naquele país.
“Nós, alemães, sabemos pela nossa experiência que estas palavras não são um fútil espantalho. Experimentámos a separação entre o poder e o direito, o poder colocar-se contra o direito, o seu espezinhar o direito, de tal modo que o Estado se tornara o instrumento para a destruição do direito: tornara-se uma banda de salteadores muito bem organizada, que podia ameaçar o mundo inteiro e impeli-lo até à beira do precipício. Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político”, advertiu Bento XVI.
Daqui o Papa prosseguiu, argumentando contra uma visão estritamente positivista do direito. A maior parte dos assuntos podem depender da opinião da maioria, explicou, mas: “é evidente que, nas questões fundamentais do direito em que está em jogo a dignidade do homem e da humanidade, o princípio maioritário não basta”. Aqui, mais uma vez o Papa tocou no assunto do regime nazi, elogiando todos aqueles que lhe resistiram, não obstante estarem a agir contra a lei da altura: “Com base nesta convicção, os combatentes da resistência agiram contra o regime nazista e contra outros regimes totalitários, prestando assim um serviço ao direito e à humanidade inteira”.
A novidade do Cristianismo
Historicamente, afirma Bento XVI, a fonte da legislação era a religião. Mas longe de pedir o regresso desse período, o Papa elogia a novidade trazida à história pelo Cristianismo, que rompeu com essa visão, apelando antes à harmonia entre a natureza e a razão como fontes do direito, uma ideia que já se debatia nos círculos filosóficos desde o século II antes de Cristo.
Esta novidade, explicou Bento XVI aos deputados alemães, teve consequências históricas cruciais: “Desta ligação pré-cristã entre direito e filosofia parte o caminho que leva, através da Idade Média cristã, ao desenvolvimento jurídico do Iluminismo até à Declaração dos Direitos Humanos e depois à nossa Lei Fundamental alemã, pela qual o nosso povo reconheceu, em 1949, «os direitos invioláveis e inalienáveis do homem como fundamento de toda a comunidade humana, da paz e da justiça no mundo».”
A noção de direito natural não é, portanto, uma mera curiosidade católica, explicou o Papa, mas sim um dos fundamentos da cultura e da civilização europeia. A visão meramente positivista do mundo e da sociedade põem em causa este conceito, com grandes riscos para a sociedade. “Onde a razão positivista se considera como a única cultura suficiente, relegando todas as outras realidades culturais para o estado de subculturas, aquela diminui o homem, antes, ameaça a sua humanidade. Digo isto pensando precisamente na Europa, onde vastos ambientes procuram reconhecer apenas o positivismo como cultura comum e como fundamento comum para a formação do direito, enquanto todas as outras convicções e os outros valores da nossa cultura são reduzidos ao estado de uma subcultura”.
Ecologia humana
Um reflexo desta ameaça encontra-se na ecologia, explica o Papa. “Diria que o aparecimento do movimento ecológico na política alemã (…) foi, e continua a ser, um grito que anela por ar fresco, um grito que não se pode ignorar nem acantonar, porque se vislumbra nele muita irracionalidade. Pessoas jovens deram-se conta de que, nas nossas relações com a natureza, há algo que não está bem; que a matéria não é apenas um material para nossa feitura, mas a própria terra traz em si a sua dignidade e devemos seguir as suas indicações”.
A esta ideia, que certamente terá ressoado junto dos deputados, Bento XVI fez seguir a sua estocada final, o apelo à defesa daquilo a que chama, “ecologia humana”.
“Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando ele escuta a natureza, respeita-a e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana”, afirmou.
As palavras de Bento XVI foram escutadas com muita atenção pelos mais de 500 deputados presentes, mas recorde-se que a sala não se encontrava cheia. Cerca de uma centena de deputados anunciaram publicamente que se iriam ausentar da sessão em protesto contra a presença do Papa naquele espaço e as posições morais da Igreja.
Fora do parlamento uma manifestação convocada por uma panóplia de organizações reuniu cerca de 15 mil pessoas, entre os quais activistas homossexuais. O próprio presidente da câmara de Berlim, homossexual assumido, terá lamentado não poder participar na manifestação, precisamente por estar ocupado com a tarefa de receber o Papa na cidade.
Findo o discurso aos deputados alemães Bento XVI encontra-se com a comunidade judaica, ainda dentro do edifício do parlamento.
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=95&did=173887
"Everybody Hurts"
O fim da sintonia na frequência dos R.E.M.
Notícia amarga para uma obra plena. Que assim seja. Ficam futuras reedições e uma discografia que é obra
É coisa que não se faz, dizer "chega, acabou" na internet, sem aviso. Compreendia-se se as despedidas fossem as de outros, de alguém que não tivesse marcado as últimas três décadas do rock''n''roll. Mas neste caso, e no mínimo, exigia-se uma digressão de despedida, um "I love you all" respondido em coro por qualquer público, fosse qual fosse a nacionalidade. Os R.E.M. alcançaram o feito de agradar a tudo o que é gosto, dos mais dados às coisas do mainstream aos que nunca comem tudo o que está no prato, porque há gordura a mais ou sal a menos. A banda anunciou ontem o encerramento da actividade no seu site oficial (remhq.com) e nós ficámos a ver a notícia passar.
A parte importante desta história: os porquês. Michael Stipe, voz, atitude e símbolo fotográfico do grupo, pegou numa frase sábia sem dono e disse "o segredo em participar numa festa está em saber quando chega a hora de ir embora". Peter Buck, o herói das guitarras de garagem feito adulto tranquilamente criativo, deixou apenas um "ficamos todos amigos e de certeza que nos vamos encontrar várias vezes". E Mike Mills, baixista e o que mais houvesse para fazer nas canções do grupo, foi o mais objectivo: "Durante a última digressão, e já enquanto fazíamos ''Collapse into Now'' [o álbum editado em Março deste ano], perguntámo-nos ''e agora, o que fazemos agora?''. Percebemos que o nosso ciclo se fechava naturalmente." De resto, os músicos multiplicaram-se em agradecimentos mútuos e outros tantos dedicados aos fãs.
O que podem esperar estes últimos? Para já, aguardam-se inevitáveis edições e reedições, no formato best of, live, b-sides e noutras expressões anglófonas. Mas o mais saudável - e obrigatório, arriscamos dizer - é regressar à obra do grupo, um compêndio pop que recuperou, reinventou e gerou ramificações que ainda hoje lhe devem vassalagem. Os R.E.M. surgiram em Athens, no estado da Georgia, em 1981 (com o brilhante single "Radio Free Europe"), para dizer que dos brainstormings universitários nascia uma nova forma de entender o pós-punk e o hardcore americanos. Que era possível pegar em irritação (conhecida também como rebeldia sem grandes motivos) juvenil e transformá-la em canções para ouvidos grandes. Começaram nos álbuns com "Murmur", em 1983 (e se há obras-primas são coisas como esta), e foram até ao século xxi fazendo do punk oleoso coisa açucarada, viajando entre a electricidade e as paisagens acústicas com a mesma naturalidade e contundência. Fizeram hinos tão melancólicos ("Everybody Hurts") quanto indisciplinados ("It''s the End of the World"), foram do indie-alternativo-mal-temos-dinheiro-para-gravar-isto aos contratos milionários, como o que assinaram com a Warner na altura de "New Adventures in Hi-Fi". E coleccionavam uma legião de ansiosos apaixonados de cada vez que anunciavam um álbum novo ou um regresso às digressões.(...)
por Tiago Pereira,
"i" 22 de Setembro de 2011
Notícia amarga para uma obra plena. Que assim seja. Ficam futuras reedições e uma discografia que é obra
É coisa que não se faz, dizer "chega, acabou" na internet, sem aviso. Compreendia-se se as despedidas fossem as de outros, de alguém que não tivesse marcado as últimas três décadas do rock''n''roll. Mas neste caso, e no mínimo, exigia-se uma digressão de despedida, um "I love you all" respondido em coro por qualquer público, fosse qual fosse a nacionalidade. Os R.E.M. alcançaram o feito de agradar a tudo o que é gosto, dos mais dados às coisas do mainstream aos que nunca comem tudo o que está no prato, porque há gordura a mais ou sal a menos. A banda anunciou ontem o encerramento da actividade no seu site oficial (remhq.com) e nós ficámos a ver a notícia passar.
A parte importante desta história: os porquês. Michael Stipe, voz, atitude e símbolo fotográfico do grupo, pegou numa frase sábia sem dono e disse "o segredo em participar numa festa está em saber quando chega a hora de ir embora". Peter Buck, o herói das guitarras de garagem feito adulto tranquilamente criativo, deixou apenas um "ficamos todos amigos e de certeza que nos vamos encontrar várias vezes". E Mike Mills, baixista e o que mais houvesse para fazer nas canções do grupo, foi o mais objectivo: "Durante a última digressão, e já enquanto fazíamos ''Collapse into Now'' [o álbum editado em Março deste ano], perguntámo-nos ''e agora, o que fazemos agora?''. Percebemos que o nosso ciclo se fechava naturalmente." De resto, os músicos multiplicaram-se em agradecimentos mútuos e outros tantos dedicados aos fãs.
O que podem esperar estes últimos? Para já, aguardam-se inevitáveis edições e reedições, no formato best of, live, b-sides e noutras expressões anglófonas. Mas o mais saudável - e obrigatório, arriscamos dizer - é regressar à obra do grupo, um compêndio pop que recuperou, reinventou e gerou ramificações que ainda hoje lhe devem vassalagem. Os R.E.M. surgiram em Athens, no estado da Georgia, em 1981 (com o brilhante single "Radio Free Europe"), para dizer que dos brainstormings universitários nascia uma nova forma de entender o pós-punk e o hardcore americanos. Que era possível pegar em irritação (conhecida também como rebeldia sem grandes motivos) juvenil e transformá-la em canções para ouvidos grandes. Começaram nos álbuns com "Murmur", em 1983 (e se há obras-primas são coisas como esta), e foram até ao século xxi fazendo do punk oleoso coisa açucarada, viajando entre a electricidade e as paisagens acústicas com a mesma naturalidade e contundência. Fizeram hinos tão melancólicos ("Everybody Hurts") quanto indisciplinados ("It''s the End of the World"), foram do indie-alternativo-mal-temos-dinheiro-para-gravar-isto aos contratos milionários, como o que assinaram com a Warner na altura de "New Adventures in Hi-Fi". E coleccionavam uma legião de ansiosos apaixonados de cada vez que anunciavam um álbum novo ou um regresso às digressões.(...)
por Tiago Pereira,
"i" 22 de Setembro de 2011
«Lembro-me dos patos, dos cisnes, de ser tão feliz, lembro-me de tudo»
Croniquinha
Moro num apartamento que escolhi, comprei, está em meu nome, o único bem no mundo, não contando o automóvel, que está em meu nome, porque nunca quis ter coisas que me pertencessem e, no entanto, não me abandona a impressão de morar num hotel, numa espécie de suite com alguns quartos. Faço cerimónia, não ligo aos móveis, não ligo aos objectos, escrevo aqui como fui escrevendo em tantos outros sítios, em Portugal e no estrangeiro, e não me sinto em casa, dá-me ideia de habitar, por empréstimo, o lugar de um outro que não conheço e que, a qualquer momento, vai entrar e mandar-me embora, falta-me o sentido de propriedade do que quer que seja, onde eu gostava mesmo de viver era num comboio, prestes a viajar, que não partisse nunca. Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito. Às vezes parece-me que sou uma nuvem com raízes, sempre a partir e a ficar. Não abandono os sítios de que me fui embora, coloquei a alma, escondida, sob cada objecto. Continuo em Veneza com sete anos, em Berlim com quarenta, não saí do lago do Jardim Zoológico, onde passeava, com o meu avô, num barco com pedais. Lembro-me dos patos, dos cisnes, de ser tão feliz, lembro-me de tudo. Não esqueci nada, não vou esquecer nada. Sofrimentos de amor aos doze anos, os primeiros versos, um pardal de pata quebrada que o sapateiro consertou com uma tala de cana. Certos perfumes nos elevadores vazios, as conversas, cheias de palavras desconhecidas, dos adultos, ajudar à missa na igreja gelada, a dor dos outros, que invariavelmente me aflige, o sacristão coxo, de Nelas, a pedalar uma trotineta que não existia. O sorriso raro do meu pai, as duas empregadas da minha avó a beijarem-se. Vidas pequeninas que eu não compreendia. A profunda solidão das pessoas. O meu espanto diante das criaturas amargas. Entendo a tristeza, entendo o desejo de suicídio, não entendo a amargura, o azedume, a avidez. Nem a antipatia, nem a inveja, nem a vaidade. Hoje passei pela igreja de Santo António onde, em criança, entrei tanta vez. Acho que ele me salvou das três doenças difíceis que tive. Com seis anos a minha palma no seu túmulo, em Pádua. Há-de estar lá, bem impressa, a marca destes dedos. Intermináveis discursos diante de quadros e estátuas, que me aborreciam de morte. Entre parênteses também não entendo a morte e, quanto à vida, será que a entendo de facto? Ou à minha adolescência, veemente e confusa? O desejo informulado, a descoberta atónita do sexo. Que mistério, à luz da madrugada, o corpo que se transforma e cresce e, depois, a minha cara no lençol como num sudário. Agora veio-me à cabeça um amigo meu, Frei Bento Domingues. Um dia disse-lhe
- Estás sempre tão alegre
ele respondeu
- O que eu podia eu ser senão alegre?
e não conheço mais nenhuma pessoa em que até os óculos riem, não conheço ninguém com tanta esperança, tanta curiosidade infantil, tanta fé de olhos abertos, tanta tolerância. Raios o partam. Comecei pela casa mas aquela que sinto minha fica longe e já não nos pertence. Não me atrevo a entrar, olho-a de longe, quase a medo, e é tudo. Passo na estrada, penso
- Ali era a casa
corrijo
- Ali é a casa
e fujo. Quase tudo mudou nas redondezas, aliás, quase toda a gente faleceu. O casaco do meu outro avô, cheio de palitos. As duas lareiras da sala. Não era uma casa de ricos, recordo-me de imensas chávenas com a asa quebrada, recordo-me da mesa de pingue-pongue no andar de baixo e dos sons repetidos, cada vez mais rápidos, cada vez mais ténues, da bola ao cair no chão de pedra. Da vinha. Das vindimas. Olha, lá estão as empregadas a beijarem-se de novo e eu, parvo, sem entender. Beijos como no cinema, cochichos ternos. Fugi também, ocultando a minha perplexidade na trepadeira, cheia de insectos e lagartixas.
Afastava-me, com receio dos bichos, até ao muro ao lado da cancela. A estrada deserta, nem uma velha num burro, nem uma pessoa com um atado de lenha à cabeça. Comecei a escutar um barulho de guizos ao longe, um barulho de rodas de carroça, um barulho de vozes. A estrada tornava-se negra, vibrante, cheia de ecos que cresciam, eixos mal oleados, pranchas desconjuntadas, o que se me afigurava um canto. E, então, passaram os ciganos.
António Lobo Antunes, 22/9/2011
http://aeiou.visao.pt/croniquinha
Moro num apartamento que escolhi, comprei, está em meu nome, o único bem no mundo, não contando o automóvel, que está em meu nome, porque nunca quis ter coisas que me pertencessem e, no entanto, não me abandona a impressão de morar num hotel, numa espécie de suite com alguns quartos. Faço cerimónia, não ligo aos móveis, não ligo aos objectos, escrevo aqui como fui escrevendo em tantos outros sítios, em Portugal e no estrangeiro, e não me sinto em casa, dá-me ideia de habitar, por empréstimo, o lugar de um outro que não conheço e que, a qualquer momento, vai entrar e mandar-me embora, falta-me o sentido de propriedade do que quer que seja, onde eu gostava mesmo de viver era num comboio, prestes a viajar, que não partisse nunca. Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito. Às vezes parece-me que sou uma nuvem com raízes, sempre a partir e a ficar. Não abandono os sítios de que me fui embora, coloquei a alma, escondida, sob cada objecto. Continuo em Veneza com sete anos, em Berlim com quarenta, não saí do lago do Jardim Zoológico, onde passeava, com o meu avô, num barco com pedais. Lembro-me dos patos, dos cisnes, de ser tão feliz, lembro-me de tudo. Não esqueci nada, não vou esquecer nada. Sofrimentos de amor aos doze anos, os primeiros versos, um pardal de pata quebrada que o sapateiro consertou com uma tala de cana. Certos perfumes nos elevadores vazios, as conversas, cheias de palavras desconhecidas, dos adultos, ajudar à missa na igreja gelada, a dor dos outros, que invariavelmente me aflige, o sacristão coxo, de Nelas, a pedalar uma trotineta que não existia. O sorriso raro do meu pai, as duas empregadas da minha avó a beijarem-se. Vidas pequeninas que eu não compreendia. A profunda solidão das pessoas. O meu espanto diante das criaturas amargas. Entendo a tristeza, entendo o desejo de suicídio, não entendo a amargura, o azedume, a avidez. Nem a antipatia, nem a inveja, nem a vaidade. Hoje passei pela igreja de Santo António onde, em criança, entrei tanta vez. Acho que ele me salvou das três doenças difíceis que tive. Com seis anos a minha palma no seu túmulo, em Pádua. Há-de estar lá, bem impressa, a marca destes dedos. Intermináveis discursos diante de quadros e estátuas, que me aborreciam de morte. Entre parênteses também não entendo a morte e, quanto à vida, será que a entendo de facto? Ou à minha adolescência, veemente e confusa? O desejo informulado, a descoberta atónita do sexo. Que mistério, à luz da madrugada, o corpo que se transforma e cresce e, depois, a minha cara no lençol como num sudário. Agora veio-me à cabeça um amigo meu, Frei Bento Domingues. Um dia disse-lhe
- Estás sempre tão alegre
ele respondeu
- O que eu podia eu ser senão alegre?
e não conheço mais nenhuma pessoa em que até os óculos riem, não conheço ninguém com tanta esperança, tanta curiosidade infantil, tanta fé de olhos abertos, tanta tolerância. Raios o partam. Comecei pela casa mas aquela que sinto minha fica longe e já não nos pertence. Não me atrevo a entrar, olho-a de longe, quase a medo, e é tudo. Passo na estrada, penso
- Ali era a casa
corrijo
- Ali é a casa
e fujo. Quase tudo mudou nas redondezas, aliás, quase toda a gente faleceu. O casaco do meu outro avô, cheio de palitos. As duas lareiras da sala. Não era uma casa de ricos, recordo-me de imensas chávenas com a asa quebrada, recordo-me da mesa de pingue-pongue no andar de baixo e dos sons repetidos, cada vez mais rápidos, cada vez mais ténues, da bola ao cair no chão de pedra. Da vinha. Das vindimas. Olha, lá estão as empregadas a beijarem-se de novo e eu, parvo, sem entender. Beijos como no cinema, cochichos ternos. Fugi também, ocultando a minha perplexidade na trepadeira, cheia de insectos e lagartixas.
Afastava-me, com receio dos bichos, até ao muro ao lado da cancela. A estrada deserta, nem uma velha num burro, nem uma pessoa com um atado de lenha à cabeça. Comecei a escutar um barulho de guizos ao longe, um barulho de rodas de carroça, um barulho de vozes. A estrada tornava-se negra, vibrante, cheia de ecos que cresciam, eixos mal oleados, pranchas desconjuntadas, o que se me afigurava um canto. E, então, passaram os ciganos.
António Lobo Antunes, 22/9/2011
http://aeiou.visao.pt/croniquinha
30 figuras de topo do Estado avisadas sobre a Madeira
![]() |
Dois presidentes da República, dois procuradores-gerais da República, três primeiros-ministros, quatro ministros das Finanças, três presidentes da Assembleia da República, dois presidentes do Supremo Tribunal Administrativo, três presidentes do Tribunal Constitucional, três presidente do Supremo Tribunal de Justiça, entidades regionais (líderes dos partidos e deputados incluídos).
Todos foram informados. Mas ninguém reagiu aos sucessivos alertas do Tribunal de Contas. Só a 'troika'.
A lista a que o Tribunal de Contas entregou os pareceres sobre as contas das regiões autónomas é vastíssima. E há ainda publicação no 'Diário da República'. Mas ninguém agiu face aos avisos.
E quem paga a factura é o palerma!!!
Diário de Noticias - 22/09/2011
Publicada por
Rua do Souto
às
15:02
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A protecção dos direitos das mulheres e das meninas
Santa Sé contra promoção do “aborto seguro”
Rejeita que se desviem ao aborto ajudas necessárias para as mulheres
O observador permanente junto à ONU em Genebra, Dom Silvano Tomasi, mostrou, em sua intervenção sobre a mortalidade materna – na 18ª Sessão do Conselho de Direitos do Homem, que está sendo realizada na cidade –, a rejeição total da Santa Sé à promoção do “aborto seguro” nos países pobres.
“Minha delegação considera inaceitável qualquer tentativa de desviar os recursos econômicos, tão necessários, destas eficazes intervenções salva-vidas, a programas mais amplos para a contracepção e o aborto, dirigidos a limitar a procriação de uma nova vida ou a destruir a vida de uma criança”, sublinhou o prelado, em sua intervenção de 15 de setembro.
Dom Tomasi se referia ao informe sobre “Práticas para a adoção de um enfoque baseado nos direitos humanos para eliminar a mortalidade materna evitável e os direitos humanos”(A/HRC/18/27, 8 de julho de 2011), submetida a estudo nesta sessão.
No informe, fala-se de práticas médicas adequadas para combater a mortalidade materna com as quais a Santa Sé concorda, como a proteção dos direitos das mulheres e das meninas, a extensão da assistência sanitária etc.
No entanto, afirma, há dois elementos negativos propostos pelo informe, definidos como “aspectos de boa práxis” para reduzir a mortalidade materna, isto é, “aumentar o acesso à contracepção e ao planejamento familiar” e resolver o problema do chamado “aborto não-seguro para as mulheres”.
Diante disso, replicou o prelado, “a Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstrou que, na África, as mulheres morrem sobretudo por cinco causas principais: patologias vinculadas à hipertensão, falta de assistência obstétrica, hemorragias, septicemia, infecções e doenças relacionadas ao HIV”.
“As intervenções realizadas para enfrentar estas emergências médicas incluem a formação e o emprego de instrumentos obstétricos, a provisão de antibióticos e de medicações uterotônicas e melhoria do sistema dos bancos de sangue”, sublinhou, declarando “inaceitável” que estes fundos sejam destinados à contracepção e ao aborto.
Responsabilidade da família
O prelado considera que deve ser dirigida “uma particular atenção para que o marido e a mulher tenham garantida a liberdade de decidir responsavelmente, livres de qualquer coação social ou legal, o número de filhos e o intervalo entre um nascimento e outro”.
“A intenção dos governos e das demais agências não deveria ser a de decidir pelo casal, mas a de criar as condições sociais que lhe permitam tomar as decisões corretas à luz das suas responsabilidades diante de Deus, de si mesmo, da sociedade da qual faz parte e da ordem moral objetiva”, afirmou, citando a carta de João Paulo II ao secretário-geral da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, de 1994.
Além disso, recordou que a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre População, realizada na Cidade do México em 1984, reconheceu, por unanimidade, que “o aborto, que destrói a vida humana existente (…), não é jamais um método aceitável de planificação familiar”.
“Consideramos totalmente inaceitável que o chamado 'aborto seguro' seja promovido pelo informe debatido nesta Sessão do Conselho dos Direitos do Homem ou talvez, de forma mais significativa, pela Estratégia Global para a Saúde das Mulheres e das Crianças das Nações Unidas, posta em marcha pelo secretário-geral das Nações Unidas em setembro de 2010”, acrescentou.
Acção eclesial
Por outro lado, quis recordar que a Igreja Católica apoia uma ampla rede de serviços de saúde em todos os lugares do mundo, oferecendo particularmente assistência a comunidades pobres e rurais, que muitas vezes são excluídas do acesso aos serviços promovidos pelos governos.
Citou, entre outros, os serviços especializados no tratamento e reintegração social das vítimas de violência doméstica, bem como a promoção do desenvolvimento integral e educação das mulheres e das jovens.
“Além disso, as organizações católicas defendem, no âmbito global, regional, nacional e local, políticas e práticas dirigidas a proteger os direitos das mulheres e das meninas”, acrescentou.
Neste sentido, afirmou que, para reduzir a mortalidade e morbilidade maternas, é necessário, em primeiro lugar, “melhorar a condição das mulheres, promovendo a igualdade entre homens e mulheres, a eliminação dos casamentos em idade precoce e a conseguinte promoção da dilação no início das relações sexuais, melhoria da condição social, econômica, sanitária e alimentar das mulheres e jovens, e a eliminação de algumas práticas prejudiciais, como a mutilação dos genitais femininos e a violência doméstica”.
O prelado concluiu afirmando que é necessário “reforçar os sistemas de saúde e assistência sanitária básica, para melhorar o acesso a obstetras válidos e assistência obstétrica de emergência em caso de complicações”, além de “melhorar o acompanhamento e avaliação das obrigações estatais para garantir a responsabilidade de todos os participantes e levar a cabo as diversas políticas”.
Genebra, 21 de Setembro de 2011 (ZENIT.org)
Rejeita que se desviem ao aborto ajudas necessárias para as mulheres
O observador permanente junto à ONU em Genebra, Dom Silvano Tomasi, mostrou, em sua intervenção sobre a mortalidade materna – na 18ª Sessão do Conselho de Direitos do Homem, que está sendo realizada na cidade –, a rejeição total da Santa Sé à promoção do “aborto seguro” nos países pobres.
“Minha delegação considera inaceitável qualquer tentativa de desviar os recursos econômicos, tão necessários, destas eficazes intervenções salva-vidas, a programas mais amplos para a contracepção e o aborto, dirigidos a limitar a procriação de uma nova vida ou a destruir a vida de uma criança”, sublinhou o prelado, em sua intervenção de 15 de setembro.
Dom Tomasi se referia ao informe sobre “Práticas para a adoção de um enfoque baseado nos direitos humanos para eliminar a mortalidade materna evitável e os direitos humanos”(A/HRC/18/27, 8 de julho de 2011), submetida a estudo nesta sessão.
No informe, fala-se de práticas médicas adequadas para combater a mortalidade materna com as quais a Santa Sé concorda, como a proteção dos direitos das mulheres e das meninas, a extensão da assistência sanitária etc.
No entanto, afirma, há dois elementos negativos propostos pelo informe, definidos como “aspectos de boa práxis” para reduzir a mortalidade materna, isto é, “aumentar o acesso à contracepção e ao planejamento familiar” e resolver o problema do chamado “aborto não-seguro para as mulheres”.
Diante disso, replicou o prelado, “a Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstrou que, na África, as mulheres morrem sobretudo por cinco causas principais: patologias vinculadas à hipertensão, falta de assistência obstétrica, hemorragias, septicemia, infecções e doenças relacionadas ao HIV”.
“As intervenções realizadas para enfrentar estas emergências médicas incluem a formação e o emprego de instrumentos obstétricos, a provisão de antibióticos e de medicações uterotônicas e melhoria do sistema dos bancos de sangue”, sublinhou, declarando “inaceitável” que estes fundos sejam destinados à contracepção e ao aborto.
Responsabilidade da família
O prelado considera que deve ser dirigida “uma particular atenção para que o marido e a mulher tenham garantida a liberdade de decidir responsavelmente, livres de qualquer coação social ou legal, o número de filhos e o intervalo entre um nascimento e outro”.
“A intenção dos governos e das demais agências não deveria ser a de decidir pelo casal, mas a de criar as condições sociais que lhe permitam tomar as decisões corretas à luz das suas responsabilidades diante de Deus, de si mesmo, da sociedade da qual faz parte e da ordem moral objetiva”, afirmou, citando a carta de João Paulo II ao secretário-geral da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, de 1994.
Além disso, recordou que a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre População, realizada na Cidade do México em 1984, reconheceu, por unanimidade, que “o aborto, que destrói a vida humana existente (…), não é jamais um método aceitável de planificação familiar”.
“Consideramos totalmente inaceitável que o chamado 'aborto seguro' seja promovido pelo informe debatido nesta Sessão do Conselho dos Direitos do Homem ou talvez, de forma mais significativa, pela Estratégia Global para a Saúde das Mulheres e das Crianças das Nações Unidas, posta em marcha pelo secretário-geral das Nações Unidas em setembro de 2010”, acrescentou.
Acção eclesial
Por outro lado, quis recordar que a Igreja Católica apoia uma ampla rede de serviços de saúde em todos os lugares do mundo, oferecendo particularmente assistência a comunidades pobres e rurais, que muitas vezes são excluídas do acesso aos serviços promovidos pelos governos.
Citou, entre outros, os serviços especializados no tratamento e reintegração social das vítimas de violência doméstica, bem como a promoção do desenvolvimento integral e educação das mulheres e das jovens.
“Além disso, as organizações católicas defendem, no âmbito global, regional, nacional e local, políticas e práticas dirigidas a proteger os direitos das mulheres e das meninas”, acrescentou.
Neste sentido, afirmou que, para reduzir a mortalidade e morbilidade maternas, é necessário, em primeiro lugar, “melhorar a condição das mulheres, promovendo a igualdade entre homens e mulheres, a eliminação dos casamentos em idade precoce e a conseguinte promoção da dilação no início das relações sexuais, melhoria da condição social, econômica, sanitária e alimentar das mulheres e jovens, e a eliminação de algumas práticas prejudiciais, como a mutilação dos genitais femininos e a violência doméstica”.
O prelado concluiu afirmando que é necessário “reforçar os sistemas de saúde e assistência sanitária básica, para melhorar o acesso a obstetras válidos e assistência obstétrica de emergência em caso de complicações”, além de “melhorar o acompanhamento e avaliação das obrigações estatais para garantir a responsabilidade de todos os participantes e levar a cabo as diversas políticas”.
Genebra, 21 de Setembro de 2011 (ZENIT.org)
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Egito: radicalização da “Primavera Árabe”
O ataque à embaixada israelense e o avanço do fundamentalismo
Um desastre evitado por um triz: o primeiro ministro israelita Benjamin Netanyahu resumiu assim o ataque à embaixada do seu país na capital egípcia, que deixou pelo menos três mortos e centenas de feridos e presos. A agressão contra a sede diplomática, que, segundo Netanyahu, “simboliza a paz entre nós e o Egito” (The Guardian, 11 de Setembro), começou depois da tradicional oração da sexta-feira e do agora também tradicional protesto na Praça Tahrir, quando centenas de manifestantes se dirigiram contra a embaixada e tentaram derrubar o novo muro de proteção construído ao redor do edifício.
Apesar da presença policial, dezenas de manifestantes conseguiram arrombar as portas e invadir a embaixada. A intervenção das forças especiais egípcias evitou o pior, conseguindo proteger os funcionários diplomáticos israelense, entre os quais o embaixador Yitzhak Levanon.
Alguns grupos de manifestantes tentaram chegar também à embaixada da Arábia Saudita.
A ira dos manifestantes, aparentemente, foi pela construção do próprio muro de proteção. O porta-voz da Igreja Católica no Egito, padre Rafic Greche, definiu o muro como “uma ideia infeliz” (Asia News, 10 de Setembro). Segundo o padre, “isto criou a mesma impressão que o muro construído por Israel na Cisjordânia”.
Faz semanas que a tensão na área era visível, em consequência do homicídio, por erro, de vários guardas fronteiriços egípcios por parte do exército israelita, a 18 de Agosto, depois de atentados na região turística de Eliat, no Mar Vermelho, quando sete cidadãos israelitas morreram.
Segundo analistas, entre eles o jornalista independente Jacques Benillouche, o ataque foi um ato “premeditado”, já que os manifestantes atacaram as forças da polícia com coquetéis molotov (Slate. fr, 10 de Setembro). Da mesma opinião é o padre Giovanni, missionário comboniano que vive no Cairo. “É difícil pensar que foi espontâneo” (Fides, 12 de Setembro). “Foi planejado. Os envolvidos foram recrutados em torcidas de futebol”.
Para o missionário, o ataque violento representa “um gesto de ruptura com o passado”. “Violaram um lugar 'sagrado', que no regime de Mubarak jamais teria sido atacado desse modo”. Segundo Clemens Wergin, do Welt Online (11 de Setembro), o ataque é “um ponto de inflexão”: mostra que, mais de meio ano depois da queda de Hosni Mubarak, as revoluções árabes perderam a inocência e voltaram às “antigas receitas” para mobilizar as massas. “Quando as ideias se esgotam, eles incitam o povo contra Israel”.
Para o estado judeu, o ataque, além de lembrar o dramático sequestro na embaixada dos EUA em Teerão pelos revolucionários iranianos em novembro de 1979, acontece numa hora muito delicada. Não só a Autoridade Nacional Palestina (ANP) pretende pedir que as Nações Unidas reconheçam unilateralmente a Palestina, como ainda Israel está atravessando uma grave crise diplomática com um ex-aliado, a Turquia do combativo primeiro-ministro filo-islâmico Recep Tayyip Erdogan, que exige desculpas de Jerusalém pela abordagem do navio de ajuda humanitária para Gaza, em maio do ano passado, em incidente que matou nove cidadãos turcos.
Erdogan rompeu recentemente as relações diplomáticas com Israel. Como se não bastasse, iniciou no último 12 de Setembro uma visita ao Egipto, primeira etapa de uma viagem a outros países da Primavera Árabe como a Líbia e a Tunísia. Para muitos analistas, o objetivo do premier não é só reforçar as relações com as novas administrações da região, mas também promover a Turquia como nova potência líder do mundo muçulmano. O crescente isolamento de Israel parece fazer parte dessa “política hegemônica neo-otomana”, como definida por Shlomo Avineri, professor de Ciências Políticas na Universidade Hebraica de Jerusalém (The Washington Post, 11 de Setembro).
Na terça-feira 13 de Setembro, dirigindo-se aos ministros de Assuntos Exteriores da Liga Árabe, reunidos no Cairo, Erdogan comparou Israel com uma “criança mimada” e afirmou que antes de acabar o ano “veremos a Palestina em situação bem diferente” (BBC, 13 de setembro). “Devemos trabalhar de mãos dadas com os nossos irmãos palestinos. A causa palestina é a causa da dignidade humana”, continuou. “É hora de içar a bandeira palestina nas Nações Unidas”. O estado israelita, segundo o primeiro-ministro turco, sairá do seu isolamento “somente se agir como um estado razoável, responsável, sério e normal”.
Segundo o padre Greche, entre os envolvidos no ataque à embaixada havia gente com o alcorão na mão ou no bolso. Talvez seja apenas um detalhe, mas ganha muita importância no contexto das próximas eleições, previstas para setembro e adiadas para novembro. Segundo pesquisas, as forças islamistas, desde os Irmãos Muçulmanos até o Partido da Luz dos Salafitas, poderiam acabar com todas as outras propostas. Seria um “desastre geopolítico”, fruto do “devastador vazio de poder” que prevalece hoje no Cairo, escreveu Franco Venturini no Corriere della Sera (11 de Setembro). “O Egipto não está caminhando para a democracia, mas para a islamização”, alerta sem hesitar o ex-embaixador israelense no Cairo, Eli Shaked: “É o mesmo caso da Turquia e de Gaza. O mesmo que aconteceu no Irão em 1979” (The New York Times, 10 de Setembro).
A perspectiva de uma possível vitória dos islamistas preocupa a comunidade cristã do Egipto. O povo, segundo o patriarca católico de Alexandria dos coptas, cardeal Antonios Naguib, “segue o que pregam nas mesquitas. E os imãs falam todos de instaurar um estado religioso” (Terrasanta.net, 1º de Setembro).
“Os partidos islâmicos só repetem que serão respeitados os direitos dos cristãos na base da lei islâmica. Eu não entendo a necessidade dessa premissa: que tudo deva ser regulado pela lei islâmica. Que igualdade é essa? Para mim, é uma contradição”, continuou o purpurado, que teme justamente uma volta aos tempos em que os não muçulmanos eram tolerados só como “infiéis protegidos” ou “dhimmi”, se pagavam um imposto suplementar, ou “jizya”.
Isso é o que querem alguns expoentes islamistas, entre os quais está o xeque salafita Adel el-Ghihadi. Em uma entrevista publicada no Rose al-Yusuf em Agosto e definida como “delirante” por Giuseppe Caffulli (Terrasanta.net, 26 de Agosto), o xeque e ex-combatente entre as filas dos talibãs no Afeganistão não tem dúvidas. “A revolução é vista à luz da religião e não do ponto de vista político. Para ser legal, deve se apoiar na sharia islâmica”, explicou. “Nosso plano de trabalho será exactamente governar o Egipto sobre os princípios da lei islâmica. Portanto, completaremos a islamização das nações em torno a nós, enviando missionários muçulmanos ao Sudão e à Líbia. Depois passaremos Estado por Estado, para converter todos ao islã e fazer aceitar a sharia. Prepararemos um exército egípcio capaz de formar outros exércitos islâmicos, aos que Alá dará seguramente a vitória”.
Também no que diz respeito à presença dos chamados “infiéis” em terra egípcia, el-Ghihadi tem, infelizmente, as ideias muito claras. “Os cristãos e os judeus para nós são kafir, não crentes. Eu como muçulmano devo apoiar o muçulmano, antes do cristão. Os demais são considerados inimigos. Se não incomodam, podem ser tratados com certa benevolência. Sempre dentro de certos limites”, afirmou, acrescentando, no entanto, que “os cristãos não devem ocupar um lugar de importância como o de juízes de tribunais, nem no exército, nem na polícia”. Para o xeque, “os cristãos são livres para rezar em suas igrejas. Mas se forem motivo de discórdia e houver problemas, eu as destruirei. Não posso contradizer minha religião para contentar as pessoas. Quem quer viver em um país de maioria muçulmana deve aceitar suas leis. Ou paga o tributo, ou se torna muçulmano, ou é morto”.
Lendo essas declarações, seria melhor falar de um “Inverno árabe”. (...)
Por Paul De Maeyer
Roma, 20 de Setembro de 2011 (ZENIT.org)
Um desastre evitado por um triz: o primeiro ministro israelita Benjamin Netanyahu resumiu assim o ataque à embaixada do seu país na capital egípcia, que deixou pelo menos três mortos e centenas de feridos e presos. A agressão contra a sede diplomática, que, segundo Netanyahu, “simboliza a paz entre nós e o Egito” (The Guardian, 11 de Setembro), começou depois da tradicional oração da sexta-feira e do agora também tradicional protesto na Praça Tahrir, quando centenas de manifestantes se dirigiram contra a embaixada e tentaram derrubar o novo muro de proteção construído ao redor do edifício.
Apesar da presença policial, dezenas de manifestantes conseguiram arrombar as portas e invadir a embaixada. A intervenção das forças especiais egípcias evitou o pior, conseguindo proteger os funcionários diplomáticos israelense, entre os quais o embaixador Yitzhak Levanon.
Alguns grupos de manifestantes tentaram chegar também à embaixada da Arábia Saudita.
A ira dos manifestantes, aparentemente, foi pela construção do próprio muro de proteção. O porta-voz da Igreja Católica no Egito, padre Rafic Greche, definiu o muro como “uma ideia infeliz” (Asia News, 10 de Setembro). Segundo o padre, “isto criou a mesma impressão que o muro construído por Israel na Cisjordânia”.
Faz semanas que a tensão na área era visível, em consequência do homicídio, por erro, de vários guardas fronteiriços egípcios por parte do exército israelita, a 18 de Agosto, depois de atentados na região turística de Eliat, no Mar Vermelho, quando sete cidadãos israelitas morreram.
Segundo analistas, entre eles o jornalista independente Jacques Benillouche, o ataque foi um ato “premeditado”, já que os manifestantes atacaram as forças da polícia com coquetéis molotov (Slate. fr, 10 de Setembro). Da mesma opinião é o padre Giovanni, missionário comboniano que vive no Cairo. “É difícil pensar que foi espontâneo” (Fides, 12 de Setembro). “Foi planejado. Os envolvidos foram recrutados em torcidas de futebol”.
Para o missionário, o ataque violento representa “um gesto de ruptura com o passado”. “Violaram um lugar 'sagrado', que no regime de Mubarak jamais teria sido atacado desse modo”. Segundo Clemens Wergin, do Welt Online (11 de Setembro), o ataque é “um ponto de inflexão”: mostra que, mais de meio ano depois da queda de Hosni Mubarak, as revoluções árabes perderam a inocência e voltaram às “antigas receitas” para mobilizar as massas. “Quando as ideias se esgotam, eles incitam o povo contra Israel”.
Para o estado judeu, o ataque, além de lembrar o dramático sequestro na embaixada dos EUA em Teerão pelos revolucionários iranianos em novembro de 1979, acontece numa hora muito delicada. Não só a Autoridade Nacional Palestina (ANP) pretende pedir que as Nações Unidas reconheçam unilateralmente a Palestina, como ainda Israel está atravessando uma grave crise diplomática com um ex-aliado, a Turquia do combativo primeiro-ministro filo-islâmico Recep Tayyip Erdogan, que exige desculpas de Jerusalém pela abordagem do navio de ajuda humanitária para Gaza, em maio do ano passado, em incidente que matou nove cidadãos turcos.
Erdogan rompeu recentemente as relações diplomáticas com Israel. Como se não bastasse, iniciou no último 12 de Setembro uma visita ao Egipto, primeira etapa de uma viagem a outros países da Primavera Árabe como a Líbia e a Tunísia. Para muitos analistas, o objetivo do premier não é só reforçar as relações com as novas administrações da região, mas também promover a Turquia como nova potência líder do mundo muçulmano. O crescente isolamento de Israel parece fazer parte dessa “política hegemônica neo-otomana”, como definida por Shlomo Avineri, professor de Ciências Políticas na Universidade Hebraica de Jerusalém (The Washington Post, 11 de Setembro).
Na terça-feira 13 de Setembro, dirigindo-se aos ministros de Assuntos Exteriores da Liga Árabe, reunidos no Cairo, Erdogan comparou Israel com uma “criança mimada” e afirmou que antes de acabar o ano “veremos a Palestina em situação bem diferente” (BBC, 13 de setembro). “Devemos trabalhar de mãos dadas com os nossos irmãos palestinos. A causa palestina é a causa da dignidade humana”, continuou. “É hora de içar a bandeira palestina nas Nações Unidas”. O estado israelita, segundo o primeiro-ministro turco, sairá do seu isolamento “somente se agir como um estado razoável, responsável, sério e normal”.
Segundo o padre Greche, entre os envolvidos no ataque à embaixada havia gente com o alcorão na mão ou no bolso. Talvez seja apenas um detalhe, mas ganha muita importância no contexto das próximas eleições, previstas para setembro e adiadas para novembro. Segundo pesquisas, as forças islamistas, desde os Irmãos Muçulmanos até o Partido da Luz dos Salafitas, poderiam acabar com todas as outras propostas. Seria um “desastre geopolítico”, fruto do “devastador vazio de poder” que prevalece hoje no Cairo, escreveu Franco Venturini no Corriere della Sera (11 de Setembro). “O Egipto não está caminhando para a democracia, mas para a islamização”, alerta sem hesitar o ex-embaixador israelense no Cairo, Eli Shaked: “É o mesmo caso da Turquia e de Gaza. O mesmo que aconteceu no Irão em 1979” (The New York Times, 10 de Setembro).
A perspectiva de uma possível vitória dos islamistas preocupa a comunidade cristã do Egipto. O povo, segundo o patriarca católico de Alexandria dos coptas, cardeal Antonios Naguib, “segue o que pregam nas mesquitas. E os imãs falam todos de instaurar um estado religioso” (Terrasanta.net, 1º de Setembro).
“Os partidos islâmicos só repetem que serão respeitados os direitos dos cristãos na base da lei islâmica. Eu não entendo a necessidade dessa premissa: que tudo deva ser regulado pela lei islâmica. Que igualdade é essa? Para mim, é uma contradição”, continuou o purpurado, que teme justamente uma volta aos tempos em que os não muçulmanos eram tolerados só como “infiéis protegidos” ou “dhimmi”, se pagavam um imposto suplementar, ou “jizya”.
Isso é o que querem alguns expoentes islamistas, entre os quais está o xeque salafita Adel el-Ghihadi. Em uma entrevista publicada no Rose al-Yusuf em Agosto e definida como “delirante” por Giuseppe Caffulli (Terrasanta.net, 26 de Agosto), o xeque e ex-combatente entre as filas dos talibãs no Afeganistão não tem dúvidas. “A revolução é vista à luz da religião e não do ponto de vista político. Para ser legal, deve se apoiar na sharia islâmica”, explicou. “Nosso plano de trabalho será exactamente governar o Egipto sobre os princípios da lei islâmica. Portanto, completaremos a islamização das nações em torno a nós, enviando missionários muçulmanos ao Sudão e à Líbia. Depois passaremos Estado por Estado, para converter todos ao islã e fazer aceitar a sharia. Prepararemos um exército egípcio capaz de formar outros exércitos islâmicos, aos que Alá dará seguramente a vitória”.
Também no que diz respeito à presença dos chamados “infiéis” em terra egípcia, el-Ghihadi tem, infelizmente, as ideias muito claras. “Os cristãos e os judeus para nós são kafir, não crentes. Eu como muçulmano devo apoiar o muçulmano, antes do cristão. Os demais são considerados inimigos. Se não incomodam, podem ser tratados com certa benevolência. Sempre dentro de certos limites”, afirmou, acrescentando, no entanto, que “os cristãos não devem ocupar um lugar de importância como o de juízes de tribunais, nem no exército, nem na polícia”. Para o xeque, “os cristãos são livres para rezar em suas igrejas. Mas se forem motivo de discórdia e houver problemas, eu as destruirei. Não posso contradizer minha religião para contentar as pessoas. Quem quer viver em um país de maioria muçulmana deve aceitar suas leis. Ou paga o tributo, ou se torna muçulmano, ou é morto”.
Lendo essas declarações, seria melhor falar de um “Inverno árabe”. (...)
Por Paul De Maeyer
Roma, 20 de Setembro de 2011 (ZENIT.org)
Liechtenstein rejeita aborto com referendo
Príncipe herdeiro Alois havia anunciado sua postura contrária ao aborto
ROMA, terça-feira, 20 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Com 52,3% contra 47,7%, no último domingo, 18 de setembro, os cidadãos de Liechtenstein rejeitaram o referendo que pedia a descriminalização do aborto.
Apesar de uma campanha internacional a favor do aborto e das pesquisas que previam uma vitória da frente favorável à liberalização da interrupção voluntária da gravidez, os cidadãos de Liechtenstein se opuseram por maioria.
Atualmente, no principado, o aborto está proibido e é castigado com uma pena que pode ir até um ano de prisão, ainda que seja praticado no exterior. Não há condenações por este motivo há anos.
O texto de lei do referendo propunha a despenalização da interrupção da gravidez nas 12 primeiras semanas, com uma modificação do código penal neste sentido.
Pedia também o direito a abortar depois desse prazo, se o feto apresentasse um grave risco de incapacidade física ou mental.
No Parlamento, só uma minoria havia aceitado a iniciativa para legalizar o aborto. Em agosto, o príncipe herdeiro Alois havia se manifestado contra a liberalização do aborto. Também o arcebispo de Vaduz, Dom Wolfang Haas, se negou a celebrar a Missa como sinal de protesto contra o aborto.
Agora que o referendo foi rejeitado, os dois partidos do governo, União Patriótica e Partido Burguês Progressista, anunciaram que proporão uma modificação do Código Penal. O aborto será proibido, mas não se castigará penalmente quem o praticar no exterior.
O Principado de Liechtenstein conta com mais de 35.446 habitantes (dados de 2008), com uma densidade demográfica de 209 pessoas por km², e tem uma renda per capita das mais altas da Europa.
ROMA, terça-feira, 20 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Com 52,3% contra 47,7%, no último domingo, 18 de setembro, os cidadãos de Liechtenstein rejeitaram o referendo que pedia a descriminalização do aborto.
Apesar de uma campanha internacional a favor do aborto e das pesquisas que previam uma vitória da frente favorável à liberalização da interrupção voluntária da gravidez, os cidadãos de Liechtenstein se opuseram por maioria.
Atualmente, no principado, o aborto está proibido e é castigado com uma pena que pode ir até um ano de prisão, ainda que seja praticado no exterior. Não há condenações por este motivo há anos.
O texto de lei do referendo propunha a despenalização da interrupção da gravidez nas 12 primeiras semanas, com uma modificação do código penal neste sentido.
Pedia também o direito a abortar depois desse prazo, se o feto apresentasse um grave risco de incapacidade física ou mental.
No Parlamento, só uma minoria havia aceitado a iniciativa para legalizar o aborto. Em agosto, o príncipe herdeiro Alois havia se manifestado contra a liberalização do aborto. Também o arcebispo de Vaduz, Dom Wolfang Haas, se negou a celebrar a Missa como sinal de protesto contra o aborto.
Agora que o referendo foi rejeitado, os dois partidos do governo, União Patriótica e Partido Burguês Progressista, anunciaram que proporão uma modificação do Código Penal. O aborto será proibido, mas não se castigará penalmente quem o praticar no exterior.
O Principado de Liechtenstein conta com mais de 35.446 habitantes (dados de 2008), com uma densidade demográfica de 209 pessoas por km², e tem uma renda per capita das mais altas da Europa.
Não se esqueçam do passado recente antes de atirar a 1ª pedra
Alberto João é um Sócrates sem Armani
In Jornal Expresso
Henrique Raposo (www.expresso.pt)
O dr. Seguro, excelso líder de um partido que nunca esteve no poder, estava com uma grande moral na questão da Madeira. E sabem uma coisa? Ainda bem. O fogo de Seguro sobre Passos era necessário e justo. O primeiro-ministro não podia, de facto, ir à Madeira. Ou seja, o primeiro-ministro tinha de dizer que Alberto João Jardim era persona non grata. Bom, com as declarações de ontem, Passos Coelho fez exactamente isso. Contra os profetas do isto-nunca-muda-e-o-Alberto-João-será-protegido-pelos-Passos-e Passinhos, o primeiro-ministro retirou a confiança política a Alberto João. E sem papas na língua. Um ato político de primeira grandeza.
Portanto, neste momento, o dr. Seguro tem dois problemas. Primeiro: tem de elogiar a posição do primeiro-ministro. Segundo: o PSD já resolveu o seu dilema na questão da Madeira, mas o PS ainda não resolveu o seu. E passo, desde já, a explicar este ponto. Para ser coerente com as críticas que fazia a Sócrates, Passos tinha de abandonar Alberto João. Foi isso que fez. Para ser coerente com as críticas que fazia a Alberto João, Seguro tinha de criticar José Sócrates de forma clara. Porque o dr. Alberto João é um José Sócrates sem o Armani. O barão da Madeira é um Sócrates em ponto pequeno, é um Sócrates que governa 200 mil pessoas e não 10 milhões. Desde os tiques autoritários até ao desprezo pelos perigos do endividamento, Alberto João e Sócrates são iguais. A situação da Madeira é uma miniatura da situação de Portugal inteiro, uma situação provocada pela governação de Sócrates. A dívida pública, em 2005, era de 80 mil milhões. Hoje é de 160 mil milhões.
Moral da história? O dr. Seguro exigia que Passos retirasse a confiança política a Alberto João. Muito bem. Mas o dr. Seguro esqueceu um pormenor: para que a sua exigência tivesse legitimidade, o líder do PS tinha de retirar a confiança política a metade da sua bancada parlamentar: o socratismo está lá todo.
Publicada por
Rua do Souto
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09:43
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
Camões.
"Carlos Reis, coordenador dos programas do ensino básico, acha que “talvez devesse ser dado a Camões um outro realce, não apenas quantitativa mas também qualitativamente”. Tem razão. O problema é que Portugal tem um problema com Camões – e não é literário, como devia ser (porque é um génio de dimensão universal). É, em vez disso, de natureza política. Desde o século XIX que, infelizmente, Camões é sinónimo de patriotismo. Primeiro, pela mão dos republicanos; depois, pela do Estado Novo; depois, alternadamente, ora pela “esquerda cívica”, ora pela “direita das escolas”. De fora fica Camões como um génio a ler, reler e comentar. Às vezes, no Dia de Camões e das Comunidades, apetecia sugerir a leitura do autor de Os Lusíadas – um soneto que fosse, uma redondilha. Hão-de ver que é deslumbrante."
Francisco José Viegas
http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/
Francisco José Viegas
http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/
Ratzinger, “um feroz opositor”
Documentos secretos da Stasi: Ratzinger, “um feroz opositor”
Polícia secreta da antiga Alemanha Oriental espionou futuro papa
Em 1974, um Trabant viajava pelos campos da Turíngia, na Alemanha Oriental. Ao volante sentava-se o padre Joachim Wanke, assistente do seminário local, o único da Alemanha comunista. De carona, o professor Joseph Ratzinger. Os dois padres, escreve Rainer Erice, jornalista da rádio alemã Mitteldeutsche Rundfunk Thüringen (MDR), faziam uma excursão às históricas cidades de Jena e Weimar, num momento de descanso na breve visita do padre Ratzinger à República Democrática da Alemanha, onde daria uma série de palestras a estudantes e teólogos de Erfurt.
O que deu importância à visita, porém, é que ela marcou o começo da vigilância da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, sobre o padre Ratzinger.
Que o professor Ratzinger foi espionado pelos informantes da Stasi já se sabia. Em 2005, revelou-se que os agentes da Alemanha do Leste tinham mantido arquivos sobre o agora eleito papa. Nesta semana, novos arquivos descobertos pelo MDR esclarecem um pouco mais o que a polícia secreta pensava do futuro pontífice e quem eram os informantes que o espionavam.
Os documentos revelam que, em 1974, a Stasi era muito consciente de que o padre Ratzinger tinha futuro na Igreja, mas não havia espiões adequados para vigiá-lo. Tudo o que sabiam então, por um informante não oficial chamado Birke, empregado do bispo de Meissen, era que o professor Ratzinger tinha dado palestras sobre teologia moderna para estudantes e acadêmicos durante aquela visita.
Esforços renovados
À medida que o papel do professor crescia na Igreja, a polícia da Alemanha Oriental começou a se interessar mais pelas suas atividades, segundo o informe de Erice. Na época em que Dom Joseph Ratzinger, arcebispo de Munique, visitou Berlim, em 1978, para encontrar o cardeal Alfred Bengsch, presidente da Conferência Episcopal, o departamento de assuntos exteriores da segurança alemã oriental já tinha assumido a tarefa de espioná-lo com a ajuda de numerosos informantes não oficiais em ambas Alemanhas.
O serviço secreto da RDA considerava o professor Ratzinger como “conservador, reacionário e autoritário”, escreve Erice, e assumia que João Paulo II encarregara o então cardeal de organizar “a contrarrevolução na Polônia”. Outros documentos da Stasi revelam que Ratzinger era considerado “um dos mais ferozes opositores ao comunismo”; achavam que ele apoiava a dissuasão nuclear entre os blocos militares do Leste e do Oeste e que considerava o pacifismo “pouco realista”.
Mas Erice acrescenta que, apesar das “centenas de páginas” sobre Joseph Ratzinger, havia “pouca informação significativa”, e os informes individuais de espionagem estrangeira foram “destruídos quase na totalidade”. Os documentos descobertos se relacionam somente com “a informação básica do autor e o motivo pelo qual a informação foi reunida”.
Os documentos, no entanto, revelam detalhes interessantes sobre os agentes da Stasi encarregados de informar sobre Joseph Ratzinger. Erice escreve que “havia ao menos uma dúzia de empregados não oficiais” encarregados dessa tarefa. Estavam no grupo dois professores universitários da Alemanha Oriental considerados pela Stasicomo “de confiança”: o agente “Aurora”, professor de ateísmo científico em Jena e Warnemünde, e o agente “Lorac”, que trabalhava como professor de teologia em Leipzig. Além deles, o agente “Georg” estava no comitê executivo da Conferência Episcopal de Berlim e, aparentemente, era bem informado sobre os assuntos internos da Igreja.
Na Alemanha Ocidental, a rede da Stasi incluía um monge beneditino em Trier, cujo codinome era “Lichtblick” (Raio de Esperança). Lichtblick espionou para a Stasidurante décadas e, segundo Erice, “fez informes extensos e fiáveis sobre os acontecimentos no Vaticano”. Outro agente não oficial conhecido como “Antonius” era um jornalista da agência católica alemã de notícias, a KNA, que enviou para a Stasi vasta informação sobre o papa, o cardeal Ratzinger e o Vaticano.
Outro jornalista foi contratado em Munique com o codinome “Chamois”, enquanto um espião especialmente importante era um político da União Social Cristã e antigo confidente de Franz Josef Straus, que fora líder desse mesmo partido. O agente era chamado de “Lion” e “Trustworthy”. A rede ultrapassava as fronteiras da Alemanha. Na Itália, a Stasi empregou o agente “Bernd”, que fornecia informação sobre a política exterior da Santa Sé.
Tímido, mas encantador
Com todos esses informantes, a Stasi estava bem organizada quando Joseph Ratzinger viajou a Dresden em 1987, para um encontro com um grupo de católicos. “A Stasi fez um grande esforço para vigiar o encontro”, diz Erice, esforçando-se para que a vigilância passasse despercebida em especial na fronteira. “As forças de segurança receberam instruções para dar a ele um tratamento preferencial e educado quando cruzasse a fronteira”, dizem os informes, e acrescentam que incômodos como os registros de bagagem, usualmente aplicados aos visitantes ocidentais, “deveriam ser suprimidos”.
Apesar dos esforços, Erice diz que aStasicometeu erros básicos. Escreveu errado o nome da cidade natal do papa, Merkl em vez de Marktl. E, mesmo querendo retratá-lo negativamente, não conseguiram evitar algumas observações positivas. Além de louvar a sua grande inteligência, destacaram: “Ele pode parecer tímido no começo de uma conversa, mas tem um encanto que cativa”.
Bento XVI não é, evidentemente, o primeiro pontífice que passou boa parte da vida vigiado por agentes secretos. O beato João Paulo II foi espionado pela KGB e pela SB, polícia secreta polonesa. Segundo o estudo de George Weigel em seu recente livro “O final e o começo”, essas agências começaram a se interessar pelas atividades de Karol Wojtyla quando ele era bispo auxiliar de Cracóvia, em 1958.
Weigel recorda que, entre 1973 e 1974, as autoridades polacas consideraram prender Karol Wojtyla com a acusação de sedição. A polícia secreta o perseguia em suas viagens e tentou comprometer os seus colaboradores mais próximos. E não foi apenas o papa quem esteve na sua mira: o próprio Vaticano também esteve.
“O que mais me surpreendeu foi a magnitude de seus esforços, que exigiram milhões de horas de trabalho e bilhões de dólares”, disse Weigel, em uma entrevista ao National Catholic Register no ano passado. “Também desconhecia a quantidade de vezes que as agências de inteligência soviética tentaram manipular o Concílio Vaticano II para seus propósitos e o quão inconsciente o Vaticano parecia ser disso (e continuou sendo até 1978).
As revelações dessa semana acontecem dias antes da visita de Estado que Bento XVI realizará à Alemanha, de 22 a 25 de setembro, que inclui uma visita a Erfurt. Nessa cidade, ele será recebido pelo atual bispo da diocese, seu guia na vista de 1974, Joachim Wanke.
Por Edward Pentin
Roma 19 de Setembro de 2011 (ZENIT.org)
Polícia secreta da antiga Alemanha Oriental espionou futuro papa
Em 1974, um Trabant viajava pelos campos da Turíngia, na Alemanha Oriental. Ao volante sentava-se o padre Joachim Wanke, assistente do seminário local, o único da Alemanha comunista. De carona, o professor Joseph Ratzinger. Os dois padres, escreve Rainer Erice, jornalista da rádio alemã Mitteldeutsche Rundfunk Thüringen (MDR), faziam uma excursão às históricas cidades de Jena e Weimar, num momento de descanso na breve visita do padre Ratzinger à República Democrática da Alemanha, onde daria uma série de palestras a estudantes e teólogos de Erfurt.
O que deu importância à visita, porém, é que ela marcou o começo da vigilância da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, sobre o padre Ratzinger.
Que o professor Ratzinger foi espionado pelos informantes da Stasi já se sabia. Em 2005, revelou-se que os agentes da Alemanha do Leste tinham mantido arquivos sobre o agora eleito papa. Nesta semana, novos arquivos descobertos pelo MDR esclarecem um pouco mais o que a polícia secreta pensava do futuro pontífice e quem eram os informantes que o espionavam.
Os documentos revelam que, em 1974, a Stasi era muito consciente de que o padre Ratzinger tinha futuro na Igreja, mas não havia espiões adequados para vigiá-lo. Tudo o que sabiam então, por um informante não oficial chamado Birke, empregado do bispo de Meissen, era que o professor Ratzinger tinha dado palestras sobre teologia moderna para estudantes e acadêmicos durante aquela visita.
Esforços renovados
À medida que o papel do professor crescia na Igreja, a polícia da Alemanha Oriental começou a se interessar mais pelas suas atividades, segundo o informe de Erice. Na época em que Dom Joseph Ratzinger, arcebispo de Munique, visitou Berlim, em 1978, para encontrar o cardeal Alfred Bengsch, presidente da Conferência Episcopal, o departamento de assuntos exteriores da segurança alemã oriental já tinha assumido a tarefa de espioná-lo com a ajuda de numerosos informantes não oficiais em ambas Alemanhas.
O serviço secreto da RDA considerava o professor Ratzinger como “conservador, reacionário e autoritário”, escreve Erice, e assumia que João Paulo II encarregara o então cardeal de organizar “a contrarrevolução na Polônia”. Outros documentos da Stasi revelam que Ratzinger era considerado “um dos mais ferozes opositores ao comunismo”; achavam que ele apoiava a dissuasão nuclear entre os blocos militares do Leste e do Oeste e que considerava o pacifismo “pouco realista”.
Mas Erice acrescenta que, apesar das “centenas de páginas” sobre Joseph Ratzinger, havia “pouca informação significativa”, e os informes individuais de espionagem estrangeira foram “destruídos quase na totalidade”. Os documentos descobertos se relacionam somente com “a informação básica do autor e o motivo pelo qual a informação foi reunida”.
Os documentos, no entanto, revelam detalhes interessantes sobre os agentes da Stasi encarregados de informar sobre Joseph Ratzinger. Erice escreve que “havia ao menos uma dúzia de empregados não oficiais” encarregados dessa tarefa. Estavam no grupo dois professores universitários da Alemanha Oriental considerados pela Stasicomo “de confiança”: o agente “Aurora”, professor de ateísmo científico em Jena e Warnemünde, e o agente “Lorac”, que trabalhava como professor de teologia em Leipzig. Além deles, o agente “Georg” estava no comitê executivo da Conferência Episcopal de Berlim e, aparentemente, era bem informado sobre os assuntos internos da Igreja.
Na Alemanha Ocidental, a rede da Stasi incluía um monge beneditino em Trier, cujo codinome era “Lichtblick” (Raio de Esperança). Lichtblick espionou para a Stasidurante décadas e, segundo Erice, “fez informes extensos e fiáveis sobre os acontecimentos no Vaticano”. Outro agente não oficial conhecido como “Antonius” era um jornalista da agência católica alemã de notícias, a KNA, que enviou para a Stasi vasta informação sobre o papa, o cardeal Ratzinger e o Vaticano.
Outro jornalista foi contratado em Munique com o codinome “Chamois”, enquanto um espião especialmente importante era um político da União Social Cristã e antigo confidente de Franz Josef Straus, que fora líder desse mesmo partido. O agente era chamado de “Lion” e “Trustworthy”. A rede ultrapassava as fronteiras da Alemanha. Na Itália, a Stasi empregou o agente “Bernd”, que fornecia informação sobre a política exterior da Santa Sé.
Tímido, mas encantador
Com todos esses informantes, a Stasi estava bem organizada quando Joseph Ratzinger viajou a Dresden em 1987, para um encontro com um grupo de católicos. “A Stasi fez um grande esforço para vigiar o encontro”, diz Erice, esforçando-se para que a vigilância passasse despercebida em especial na fronteira. “As forças de segurança receberam instruções para dar a ele um tratamento preferencial e educado quando cruzasse a fronteira”, dizem os informes, e acrescentam que incômodos como os registros de bagagem, usualmente aplicados aos visitantes ocidentais, “deveriam ser suprimidos”.
Apesar dos esforços, Erice diz que aStasicometeu erros básicos. Escreveu errado o nome da cidade natal do papa, Merkl em vez de Marktl. E, mesmo querendo retratá-lo negativamente, não conseguiram evitar algumas observações positivas. Além de louvar a sua grande inteligência, destacaram: “Ele pode parecer tímido no começo de uma conversa, mas tem um encanto que cativa”.
Bento XVI não é, evidentemente, o primeiro pontífice que passou boa parte da vida vigiado por agentes secretos. O beato João Paulo II foi espionado pela KGB e pela SB, polícia secreta polonesa. Segundo o estudo de George Weigel em seu recente livro “O final e o começo”, essas agências começaram a se interessar pelas atividades de Karol Wojtyla quando ele era bispo auxiliar de Cracóvia, em 1958.
Weigel recorda que, entre 1973 e 1974, as autoridades polacas consideraram prender Karol Wojtyla com a acusação de sedição. A polícia secreta o perseguia em suas viagens e tentou comprometer os seus colaboradores mais próximos. E não foi apenas o papa quem esteve na sua mira: o próprio Vaticano também esteve.
“O que mais me surpreendeu foi a magnitude de seus esforços, que exigiram milhões de horas de trabalho e bilhões de dólares”, disse Weigel, em uma entrevista ao National Catholic Register no ano passado. “Também desconhecia a quantidade de vezes que as agências de inteligência soviética tentaram manipular o Concílio Vaticano II para seus propósitos e o quão inconsciente o Vaticano parecia ser disso (e continuou sendo até 1978).
As revelações dessa semana acontecem dias antes da visita de Estado que Bento XVI realizará à Alemanha, de 22 a 25 de setembro, que inclui uma visita a Erfurt. Nessa cidade, ele será recebido pelo atual bispo da diocese, seu guia na vista de 1974, Joachim Wanke.
Por Edward Pentin
Roma 19 de Setembro de 2011 (ZENIT.org)
Reorganização Administrativa
Moção:
Criação de Comissão Eventual de Acompanhamento da Reorganização Administrativa
O CDS Braga, consciente da importância, urgência e inevitabilidade, da reorganização administrativa do território do nosso Concelho, e atendendo, em particular, à sensibilidade do tema junto das nossas populações, vem, de uns meses a esta parte, desenvolvendo um esforço no acompanhamento e auscultação dos diversos agentes envolvidos nesta matéria. Exige-se, de todos nós, um acompanhamento e um interesse aprofundado das várias soluções que possam vir a ser apresentadas.
Neste contexto, dada a particular competência da Assembleia Municipal nesta matéria, temos aqui um papel vital no acompanhamento do trabalho que, esperamos, esteja já a ser desenvolvido pela Câmara Municipal.
Este processo de reorganização é vital, não só para as populações como entidades histórico-culturais, como para as próprias juntas de freguesia, que podem ter aqui uma oportunidade, pensamos nós, não só de ganhar dimensão mas assim também assumir um papel mais interventivo. Há, como sabemos, atribuições municipais que seriam exercidas com maior eficácia e ecumenicidade pelas freguesias. Em conjugação com as medidas de redimensionamento propugnadas, poderia surgir a oportunidade para a redefinição de um novo elenco das suas atribuições, incluindo-se neste processo a necessária revisão da Lei n.º 159/99, de 14 de Setembro. Não é, quanto a nós, também de excluir a possibilidade de algumas atribuições da Administração Central poderem passar a caber às Juntas de Freguesias.
Assim, esta reorganização, pode ser a janela de oportunidade para aumentar o conjunto de atribuições e competências objecto de transferência universal para as freguesias, para serem exercidas directamente por estas ou por associações de freguesias, já que as transferências não universais implicam a duplicação de máquinas administrativas, as quais prejudicam a eficiente afectação de recursos públicos.
Como o CDS sempre defendeu, e está plasmado no seu Programa Eleitoral às últimas eleições legislativas; "Não vale a pena entrar numa "guerra de território": a freguesia pode continuar a existir como território e identidade. O que é necessário é agregar Juntas de Freguesia. Várias freguesias podem agrupar-se numa única Junta e Assembleia de Freguesia, devendo, neste particular, ter-se em especial atenção a realidade rural, as distâncias geográficas, os equipamentos ou as redes de transportes existentes." disse.
Por estas razões e pela necessidade de trabalhar esta reorganização como uma oportunidade e não como um problema, é fundamental que esta Assembleia Municipal, dada até a sua especial representatividade, acompanhe de perto o processo.
Por isso propomos:
A constituição de uma Comissão Eventual no seio desta Assembleia Municipal, com a atribuição de acompanhamento do trabalho a realizar pela Câmara Municipal que dará origem à proposta do novo mapa de freguesias do Concelho.
CDS, Assembleia Municipal
Braga, 16 de Setembro de 2011
Criação de Comissão Eventual de Acompanhamento da Reorganização Administrativa
O CDS Braga, consciente da importância, urgência e inevitabilidade, da reorganização administrativa do território do nosso Concelho, e atendendo, em particular, à sensibilidade do tema junto das nossas populações, vem, de uns meses a esta parte, desenvolvendo um esforço no acompanhamento e auscultação dos diversos agentes envolvidos nesta matéria. Exige-se, de todos nós, um acompanhamento e um interesse aprofundado das várias soluções que possam vir a ser apresentadas.
Neste contexto, dada a particular competência da Assembleia Municipal nesta matéria, temos aqui um papel vital no acompanhamento do trabalho que, esperamos, esteja já a ser desenvolvido pela Câmara Municipal.
Este processo de reorganização é vital, não só para as populações como entidades histórico-culturais, como para as próprias juntas de freguesia, que podem ter aqui uma oportunidade, pensamos nós, não só de ganhar dimensão mas assim também assumir um papel mais interventivo. Há, como sabemos, atribuições municipais que seriam exercidas com maior eficácia e ecumenicidade pelas freguesias. Em conjugação com as medidas de redimensionamento propugnadas, poderia surgir a oportunidade para a redefinição de um novo elenco das suas atribuições, incluindo-se neste processo a necessária revisão da Lei n.º 159/99, de 14 de Setembro. Não é, quanto a nós, também de excluir a possibilidade de algumas atribuições da Administração Central poderem passar a caber às Juntas de Freguesias.
Assim, esta reorganização, pode ser a janela de oportunidade para aumentar o conjunto de atribuições e competências objecto de transferência universal para as freguesias, para serem exercidas directamente por estas ou por associações de freguesias, já que as transferências não universais implicam a duplicação de máquinas administrativas, as quais prejudicam a eficiente afectação de recursos públicos.
Como o CDS sempre defendeu, e está plasmado no seu Programa Eleitoral às últimas eleições legislativas; "Não vale a pena entrar numa "guerra de território": a freguesia pode continuar a existir como território e identidade. O que é necessário é agregar Juntas de Freguesia. Várias freguesias podem agrupar-se numa única Junta e Assembleia de Freguesia, devendo, neste particular, ter-se em especial atenção a realidade rural, as distâncias geográficas, os equipamentos ou as redes de transportes existentes." disse.
Por estas razões e pela necessidade de trabalhar esta reorganização como uma oportunidade e não como um problema, é fundamental que esta Assembleia Municipal, dada até a sua especial representatividade, acompanhe de perto o processo.
Por isso propomos:
A constituição de uma Comissão Eventual no seio desta Assembleia Municipal, com a atribuição de acompanhamento do trabalho a realizar pela Câmara Municipal que dará origem à proposta do novo mapa de freguesias do Concelho.
CDS, Assembleia Municipal
Braga, 16 de Setembro de 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
"Infelizmente, para todos, Durão Barroso não é Jacques Delors" Mira Amaral
O ex-ministro diz que é mais barato mandar para casa funcionários públicos, pagando-lhes o salário do que mantê-los a trabalhar
Mira Amaral, presidente do Banco BIC Portugês e ex-ministro da Indústria e Energia acredita que o sector privado o tem tratado melhor que o sector público. E sente-se injustiçado por Cavaco Silva, o seu primeiro-ministro, que, acredita, não soube reconhecer-lhe o devido valor: "Tinha três meninos queridos e nunca soube elogiar o trabalho de ninguém". Agora, para voltar ao governo, só na pele de ministro das Finanças. Conta que a vida o ensinou que as grandes mudanças se fazem com pequenos passos. E que é assim que se gera confiança. Defende o fim do canal público de televisão e de todos os serviços públicos inúteis. E só assim o Estado pode garantir a saúde e a educação, duas prioridades de um Estado Social. Sobre a Europa, diz que a saída de Portugal do euro seria um "disparate" sem tamanho e uma medida "preguiçosa" que nos levaria de volta ao terceiro mundo.
Pertence ao grupo dos que defendem a saída de Portugal do euro?
Portugal sair do euro é um perfeito disparate!
Porquê?
Porque se sairmos do euro a dívida mantém-se em euros e noutras moedas fortes, o que significa que as taxas de juro disparariam para 40 por cento ou 50 por cento, com a consequente perda de poder de compra e de nível de vida. Voltávamos a ser um país de terceiro mundo.
E não estamos quase lá?
Se o problema é a falta de competitividade, é preferível reduzir salários nominais, aumentar horários de trabalho ou reduzir a taxa social única. Tudo medidas que não acarretam as consequências muito graves da saída do euro.
Mas estamos à beira disso...
Sair do euro é condenar Portugal a ser um país de terceiro mundo e seria uma medida preguiçosa para tentar evitar os ajustamentos estruturais que temos que fazer. E vamos ser realistas: haverá sempre países com salários mais baixos. Deixemo-nos de fantasias.
Qual é a sua solução?
Avançar com as reformas estruturais que estão previstas no Memorando assinado com a troika.
O problema do euro existe para lá da questão de Portugal...
O que vai acontecer na Europa não vai depender só de nós. O que temos é que fazer o nosso trabalho de casa bem feito.
Como vê o desempenho de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia?
Infelizmente, para todos, Durão Barroso não é um Jaques Delors, que conseguiu formar uma estratégia e levar gente atrás de si.
Barroso nunca apresentou um pensamento estratégico para a integração europeia e para o desenvolvimento desse projecto. A Alemanha e a França não ligam ao presidente e tomam as suas decisões sem ter em conta a coesão europeia .
Portugal está refém da Europa?
Portugal precisa de manter-se no euro como de pão para a boca, mas não podemos ficar dependentes só da Europa. Não podemos esquecer o eixo atlântico, países com Angola e o Brasil. Isto já para não falar da China e da Índia...
Existem vários casos de sucesso de empresas brasileiras em Portugal. No entanto, os empresários portugueses não têm tido muito êxito no Brasil. Há uma explicação para isto?
Há duas ou três razões para isso. A primeira de todas é que o Brasil é mais proteccionista do que nós possamos pensar. Em termos económicos, o Brasil tem muita influência anglo-saxónica... Angola é mais fácil para nós.(...)
Fala das contas nacionais, da despesa pública?
Como o Estado não tem balanço é difícil dizer com exactidão, mas se Portugal fosse uma empresa não teria facturação para fazer face aos seus custos fixos actuais. A despesa fixa é elevada. A despesa pública corrente primária tem que baixar. Está nos 44% do PIB e tem de ir para uns 30% do PIB no espaço de duas legislaturas.
A situação era, antes da intervenção da Troika, de ameaça de estoiro das finanças públicas.
A dívida pública efectiva do Estado português era de cerca de 115% do PIB em 2010, da qual as parcerias público privadas representam 11% e o passivo das empresas públicas representa cerca de 15%.
Mas havia sinais evidentes de ruptura.
Há três anos fui ao Prós e Contras, a pedido do então líder do PSD Luís Filipe Menezes, discutir o Orçamento de Estado com o ministro da Finanças, Teixeira dos Santos. Disse na altura que a redução do défice não era sustentável, porque foi feita à custa do aumento da receita fiscal e não da diminuição da despesa.
E como é que se pode aliviar o peso das empresas públicas nas contas do Estado?
A questão é que as empresas públicas de transportes, por exemplo, que têm uma função social, têm receitas que não cobrem os custos. Mas há outras. Por mim era acabar com a RTP pública, canal 1, canal generalista que faz o mesmo que as privadas. A subvenção pública da empresa é igual ao investimento no TGV.
É preciso reduzir o número de serviços públicos, extinguindo os socialmente inúteis. É evidente que temos de manter o Estado nas funções de soberania e sociais. Mas só assim é que teremos dinheiro para pagar as reformas, os subsídios de desemprego, a saúde.
Se não cortarmos com o Estado inútil, não haverá dinheiro para o Estado Social.
E como se corta com o Estado inútil?
É mais barato para o Estado pagar às pessoas (Função Pública) para ficarem em casa. A poupança é maior. Preferia mandar para casa, com ordenado, uma série de gente. Depois discutia com os sindicatos o que fazer a essas pessoas.
Criaram um complicómetro...
O que é que o choca mais, neste processo?
O que mais me choca é o que aconteceu à Função Pública. Manuela Ferreira Leite congelou a progressão de carreira na Função Pública, e isso tem infelizmente continuado.
Devia ter-se dispensado logo os que não faziam falta e os outros deveriam ser geridos decentemente com naturais aumentos salariais e progressão na carreira.
Era isso que faria, se estivesse no governo?
Se eu chegasse ao governo como ministro das Finanças dizia a cada ministro: "Quais são as suas prioridades essenciais? Muito bem, então quero contrapartidas: que serviços pode extinguir?".
E dava sinal de que algo iria mudar. A vida ensinou-me que a estratégia não é fazer uma aposta grandiosa, é dar pequenos passos. O factor psicológico, introduzindo imediatamente sinais de mudança, é muito importante para gerir as expectativas das pessoas.
Falou no investimento em Angola. Hoje, Angola e corrupção são indissociáveis...
Devem ser os angolanos a falar sobre isso, eu não me meto nessas questões. Mas a verdade é que Angola já ultrapassou a União Europeia como mercado exportador de produtos portugueses. É mais fácil exportar para Angola do que para a União Europeia ou para o Brasil.
Pela experiência que tem, o que quer Angola de Portugal?
O governo angolano quer que as empresas façam parcerias com angolanos, com empresas locais, para ajudar a formar empresários no país e para fomentar o desenvolvimento local.
Eu lembro-me de que quando estava no governo e não havia empresas estrangeiras em Portugal a estratégia que seguimos para atrair investimento era igual. E as empresas não podem estar alheias a este facto.
Agora, também penso que a ex-potência colonizadora deve ser a que menos se deve meter em assuntos internos de Angola.(...)
Há um lobby instalado de grupos de interesse do Estado em relação a quem fornece o quê?
Sim. Choca-me, por exemplo, a protecção que se faz à EDP ou à PT, mas quando é para comprar determinados tipos de serviço fazem-no no mercado global em vez de apoiarem as empresas de software nacionais. É muito interessante. Veja o caso da PT e da EDP com as golden-shares para as proteger. Os gestores, quando é para fazer compras vão fazê-las lá fora, quando podiam comprar a fornecedores portugueses. Aí comportam-se como gestores do mercado internacional. Mas depois, gostavam da golden-share para os proteger de uma OPA...
Para mim, é simples: em condições de igualdade devem ser privilegiadas marcas portuguesas. Mas a compra tem de ser competitiva: a empresa tem de tratar do interesse accionista e o Estado trata do interesse nacional.
Costuma comprar nacional ou estrangeiro?
Como todos sabem gosto de qualidade de vida, embora saiba que há uns esquerdalhos que não gostam desta minha faceta. Se tiver tão bom português como estrangeiro, compro português, até acho que é uma questão de cultura cívica. Há um novo riquismo por produto estrangeiro.
E, como estamos a falar de compras, qual a sua opinião sobre um imposto sobre as grandes fortunas ou cobrar mais a quem ganha mais?
Antes de mais, uma declaração de interesses: eu não sou rico!
Vai responder como Américo Amorim, que é um pobre trabalhador?
Quando se falou nisso, percebi logo que isto ia apanhar a classe média. Como é possível, um país onde a ganhar 50 mil euros já se é rico...
A questão é que taxar o património imobiliário é complicado, porque pode não gerar renda para pagar imposto e vai acabar por ser entregue ao fisco.
No mobiliário a questão é que se pode sempre levar para outro lado. Estas medidas vão fazer fugir capitais, num momento em que o que se devia estar a fazer era captar riqueza externa.
Claro, o pagamento de impostos é um dever cívico indiscutível. Não gosto do aumento de impostos, mas percebo, e não tenham pena de mim.
O que pensa sobre as críticas às empresas que têm sede domiciliária fora de Portugal?
É um disparate. O nosso governo não nasceu de geração espontânea e Portugal assinou o Tratado que prevê a livre circulação de pessoas e bens. Se a Holanda ou o Luxemburgo oferecem boas condições, o que Portugal tem de fazer é oferecer condições melhores, aliviar a carga fiscal.
No tempo de Salazar, havia quem fugisse a pé para França... Agora há livre circulação de capitais, que o governo assinou por interesse do país. Só há uma coisa a perguntar: porque é que eles estão lá e não estão cá?! É tão simples quanto isto.
Ainda sobre si, diz que não é rico mas o valor da sua reforma já fez correr muita tinta...
A minha reforma é em função dos descontos que fiz. Trabalhei para ela contribuindo com 38 anos de carreira contributiva, e sou dos melhores clientes da minha Repartição de Finanças.
Resolvi a questão da Barragem de Cahora Bassa sem cobrar um tostão ao Estado, o que resultou em 900 milhões de dólares para os bolsos do Estado. Podia ter cobrado um fee, que seria elevadíssimo, e não o fiz. Trabalhei dois anos nisto de graça para ajudar o meu país e no fim fui enganado e enxovalhado pelo governo PSD/PP da altura.
Está magoado com Cavaco Silva?
Cavaco Silva conseguiu no governo uma imagem de mais executivo e menos político. Diz que não é político profissional mas é o mais profissional dos políticos portugueses...
Do ISEG trouxe dois amigos Ferreira Leite e Eduardo Catroga. Na Católica, como professor, ficou a gostar de Alexandre Relvas, Luís Palha, António de Sousa e Horta Osório. No governo os eleitos eram Durão Barroso, Ferreira do Amaral, Dias Loureiro, Leonor Beleza, Isabel Mota, Paulo Teixeira Pinto e Teresa Patrício Gouveia. Durão Barroso foi o seu príncipe herdeiro.Tinha três meninos queridos e nunca soube elogiar o trabalho de ninguém.
por Isabel Tavares,
"i", 19 de Setembro de 2011
Mira Amaral, presidente do Banco BIC Portugês e ex-ministro da Indústria e Energia acredita que o sector privado o tem tratado melhor que o sector público. E sente-se injustiçado por Cavaco Silva, o seu primeiro-ministro, que, acredita, não soube reconhecer-lhe o devido valor: "Tinha três meninos queridos e nunca soube elogiar o trabalho de ninguém". Agora, para voltar ao governo, só na pele de ministro das Finanças. Conta que a vida o ensinou que as grandes mudanças se fazem com pequenos passos. E que é assim que se gera confiança. Defende o fim do canal público de televisão e de todos os serviços públicos inúteis. E só assim o Estado pode garantir a saúde e a educação, duas prioridades de um Estado Social. Sobre a Europa, diz que a saída de Portugal do euro seria um "disparate" sem tamanho e uma medida "preguiçosa" que nos levaria de volta ao terceiro mundo.
Pertence ao grupo dos que defendem a saída de Portugal do euro?
Portugal sair do euro é um perfeito disparate!
Porquê?
Porque se sairmos do euro a dívida mantém-se em euros e noutras moedas fortes, o que significa que as taxas de juro disparariam para 40 por cento ou 50 por cento, com a consequente perda de poder de compra e de nível de vida. Voltávamos a ser um país de terceiro mundo.
E não estamos quase lá?
Se o problema é a falta de competitividade, é preferível reduzir salários nominais, aumentar horários de trabalho ou reduzir a taxa social única. Tudo medidas que não acarretam as consequências muito graves da saída do euro.
Mas estamos à beira disso...
Sair do euro é condenar Portugal a ser um país de terceiro mundo e seria uma medida preguiçosa para tentar evitar os ajustamentos estruturais que temos que fazer. E vamos ser realistas: haverá sempre países com salários mais baixos. Deixemo-nos de fantasias.
Qual é a sua solução?
Avançar com as reformas estruturais que estão previstas no Memorando assinado com a troika.
O problema do euro existe para lá da questão de Portugal...
O que vai acontecer na Europa não vai depender só de nós. O que temos é que fazer o nosso trabalho de casa bem feito.
Como vê o desempenho de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia?
Infelizmente, para todos, Durão Barroso não é um Jaques Delors, que conseguiu formar uma estratégia e levar gente atrás de si.
Barroso nunca apresentou um pensamento estratégico para a integração europeia e para o desenvolvimento desse projecto. A Alemanha e a França não ligam ao presidente e tomam as suas decisões sem ter em conta a coesão europeia .
Portugal está refém da Europa?
Portugal precisa de manter-se no euro como de pão para a boca, mas não podemos ficar dependentes só da Europa. Não podemos esquecer o eixo atlântico, países com Angola e o Brasil. Isto já para não falar da China e da Índia...
Existem vários casos de sucesso de empresas brasileiras em Portugal. No entanto, os empresários portugueses não têm tido muito êxito no Brasil. Há uma explicação para isto?
Há duas ou três razões para isso. A primeira de todas é que o Brasil é mais proteccionista do que nós possamos pensar. Em termos económicos, o Brasil tem muita influência anglo-saxónica... Angola é mais fácil para nós.(...)
Fala das contas nacionais, da despesa pública?
Como o Estado não tem balanço é difícil dizer com exactidão, mas se Portugal fosse uma empresa não teria facturação para fazer face aos seus custos fixos actuais. A despesa fixa é elevada. A despesa pública corrente primária tem que baixar. Está nos 44% do PIB e tem de ir para uns 30% do PIB no espaço de duas legislaturas.
A situação era, antes da intervenção da Troika, de ameaça de estoiro das finanças públicas.
A dívida pública efectiva do Estado português era de cerca de 115% do PIB em 2010, da qual as parcerias público privadas representam 11% e o passivo das empresas públicas representa cerca de 15%.
Mas havia sinais evidentes de ruptura.
Há três anos fui ao Prós e Contras, a pedido do então líder do PSD Luís Filipe Menezes, discutir o Orçamento de Estado com o ministro da Finanças, Teixeira dos Santos. Disse na altura que a redução do défice não era sustentável, porque foi feita à custa do aumento da receita fiscal e não da diminuição da despesa.
E como é que se pode aliviar o peso das empresas públicas nas contas do Estado?
A questão é que as empresas públicas de transportes, por exemplo, que têm uma função social, têm receitas que não cobrem os custos. Mas há outras. Por mim era acabar com a RTP pública, canal 1, canal generalista que faz o mesmo que as privadas. A subvenção pública da empresa é igual ao investimento no TGV.
É preciso reduzir o número de serviços públicos, extinguindo os socialmente inúteis. É evidente que temos de manter o Estado nas funções de soberania e sociais. Mas só assim é que teremos dinheiro para pagar as reformas, os subsídios de desemprego, a saúde.
Se não cortarmos com o Estado inútil, não haverá dinheiro para o Estado Social.
E como se corta com o Estado inútil?
É mais barato para o Estado pagar às pessoas (Função Pública) para ficarem em casa. A poupança é maior. Preferia mandar para casa, com ordenado, uma série de gente. Depois discutia com os sindicatos o que fazer a essas pessoas.
Criaram um complicómetro...
O que é que o choca mais, neste processo?
O que mais me choca é o que aconteceu à Função Pública. Manuela Ferreira Leite congelou a progressão de carreira na Função Pública, e isso tem infelizmente continuado.
Devia ter-se dispensado logo os que não faziam falta e os outros deveriam ser geridos decentemente com naturais aumentos salariais e progressão na carreira.
Era isso que faria, se estivesse no governo?
Se eu chegasse ao governo como ministro das Finanças dizia a cada ministro: "Quais são as suas prioridades essenciais? Muito bem, então quero contrapartidas: que serviços pode extinguir?".
E dava sinal de que algo iria mudar. A vida ensinou-me que a estratégia não é fazer uma aposta grandiosa, é dar pequenos passos. O factor psicológico, introduzindo imediatamente sinais de mudança, é muito importante para gerir as expectativas das pessoas.
Falou no investimento em Angola. Hoje, Angola e corrupção são indissociáveis...
Devem ser os angolanos a falar sobre isso, eu não me meto nessas questões. Mas a verdade é que Angola já ultrapassou a União Europeia como mercado exportador de produtos portugueses. É mais fácil exportar para Angola do que para a União Europeia ou para o Brasil.
Pela experiência que tem, o que quer Angola de Portugal?
O governo angolano quer que as empresas façam parcerias com angolanos, com empresas locais, para ajudar a formar empresários no país e para fomentar o desenvolvimento local.
Eu lembro-me de que quando estava no governo e não havia empresas estrangeiras em Portugal a estratégia que seguimos para atrair investimento era igual. E as empresas não podem estar alheias a este facto.
Agora, também penso que a ex-potência colonizadora deve ser a que menos se deve meter em assuntos internos de Angola.(...)
Há um lobby instalado de grupos de interesse do Estado em relação a quem fornece o quê?
Sim. Choca-me, por exemplo, a protecção que se faz à EDP ou à PT, mas quando é para comprar determinados tipos de serviço fazem-no no mercado global em vez de apoiarem as empresas de software nacionais. É muito interessante. Veja o caso da PT e da EDP com as golden-shares para as proteger. Os gestores, quando é para fazer compras vão fazê-las lá fora, quando podiam comprar a fornecedores portugueses. Aí comportam-se como gestores do mercado internacional. Mas depois, gostavam da golden-share para os proteger de uma OPA...
Para mim, é simples: em condições de igualdade devem ser privilegiadas marcas portuguesas. Mas a compra tem de ser competitiva: a empresa tem de tratar do interesse accionista e o Estado trata do interesse nacional.
Costuma comprar nacional ou estrangeiro?
Como todos sabem gosto de qualidade de vida, embora saiba que há uns esquerdalhos que não gostam desta minha faceta. Se tiver tão bom português como estrangeiro, compro português, até acho que é uma questão de cultura cívica. Há um novo riquismo por produto estrangeiro.
E, como estamos a falar de compras, qual a sua opinião sobre um imposto sobre as grandes fortunas ou cobrar mais a quem ganha mais?
Antes de mais, uma declaração de interesses: eu não sou rico!
Vai responder como Américo Amorim, que é um pobre trabalhador?
Quando se falou nisso, percebi logo que isto ia apanhar a classe média. Como é possível, um país onde a ganhar 50 mil euros já se é rico...
A questão é que taxar o património imobiliário é complicado, porque pode não gerar renda para pagar imposto e vai acabar por ser entregue ao fisco.
No mobiliário a questão é que se pode sempre levar para outro lado. Estas medidas vão fazer fugir capitais, num momento em que o que se devia estar a fazer era captar riqueza externa.
Claro, o pagamento de impostos é um dever cívico indiscutível. Não gosto do aumento de impostos, mas percebo, e não tenham pena de mim.
O que pensa sobre as críticas às empresas que têm sede domiciliária fora de Portugal?
É um disparate. O nosso governo não nasceu de geração espontânea e Portugal assinou o Tratado que prevê a livre circulação de pessoas e bens. Se a Holanda ou o Luxemburgo oferecem boas condições, o que Portugal tem de fazer é oferecer condições melhores, aliviar a carga fiscal.
No tempo de Salazar, havia quem fugisse a pé para França... Agora há livre circulação de capitais, que o governo assinou por interesse do país. Só há uma coisa a perguntar: porque é que eles estão lá e não estão cá?! É tão simples quanto isto.
Ainda sobre si, diz que não é rico mas o valor da sua reforma já fez correr muita tinta...
A minha reforma é em função dos descontos que fiz. Trabalhei para ela contribuindo com 38 anos de carreira contributiva, e sou dos melhores clientes da minha Repartição de Finanças.
Resolvi a questão da Barragem de Cahora Bassa sem cobrar um tostão ao Estado, o que resultou em 900 milhões de dólares para os bolsos do Estado. Podia ter cobrado um fee, que seria elevadíssimo, e não o fiz. Trabalhei dois anos nisto de graça para ajudar o meu país e no fim fui enganado e enxovalhado pelo governo PSD/PP da altura.
Está magoado com Cavaco Silva?
Cavaco Silva conseguiu no governo uma imagem de mais executivo e menos político. Diz que não é político profissional mas é o mais profissional dos políticos portugueses...
Do ISEG trouxe dois amigos Ferreira Leite e Eduardo Catroga. Na Católica, como professor, ficou a gostar de Alexandre Relvas, Luís Palha, António de Sousa e Horta Osório. No governo os eleitos eram Durão Barroso, Ferreira do Amaral, Dias Loureiro, Leonor Beleza, Isabel Mota, Paulo Teixeira Pinto e Teresa Patrício Gouveia. Durão Barroso foi o seu príncipe herdeiro.Tinha três meninos queridos e nunca soube elogiar o trabalho de ninguém.
por Isabel Tavares,
"i", 19 de Setembro de 2011
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